Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, outubro 04, 2006

Nelson Magalhães Filho: Série A e Série B (detalhe), mista s/ papel, 150X140 cm. PRÊMIO EMILIE NAJAR LEUSEN (Artista Destaque da Região do Recôncavo). Catálogo da 7 Bienal do Recôncavo, 2004.

Nelson Magalhães Filho. Paisagem que as crianças urbanas comeram, acrílico s/lona, 185X145 cm. PRÊMIO EMILIE NAJAR LEUSEN (Artista Destaque da Região do Recôncavo). Catálogo da III Bienal do Recôncavo, 1995. Nelson Magalhães Filho. S/ Título, mista s/ lona, 185X145 cm, MENÇÃO ESPECIAL na II Bienal do Recôncavo, 1993.

Nelson Magalhães Filho. Morte pelo Sonho 1, mista s/ madeira, 117X77,5 cm. PRÊMIO AQUISIÇÃO. Catálogo da I Bienal do Recôncavo, 1991.

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