
Nove bandas, entre elas, Religari, tocaram no sábado passado (25 de julho) na Casa da Cultura Galeno d'Avelírio (Cruz das Almas - Ba)
Fábulas de figueiras imoladas dentro da noite,
por acaso astúcias são imundícies?
Viva a prosódia abocanhada suscitando indagações.
A música vinha pela janela, parecia o noturno
em fá sustenido de Chopin nesta noite alheia
que peguei num livro do John Fante.
O quarto amanhecia como um perfume arrogante,
sei lá, mas era o alvorecer.
Às vezes Cândida gostava de reter a manhã
em suas mãos sempre cálidas: “você prefere tocá-la mais tarde?”
Ah, esses sinistros quintais, essas noites de pelúcia
(talvez saídas de alguma gravura gótica
ou de um cochilo do Albrech Dürer).
Tudo isso é Cândida, que sofre
de indisposições imaginárias. Navegávamos
nas porções de folhas arrancadas pelas influências
malévolas dos tempos recuados
e o céu desta cidade ameaçadora é como um besouro
perdido dentro do espelho notívago
(como dois grilos brigando cri cri cri) lagarta
de fogo na parede encarnada do quarto.
Decidimos no caminho ver tudo que fosse bizarro
e anotar no diário: sandália pelo avesso,
osso de jasmim, ouriço-do-mar, carretel com linha, etc.
Aí veio o mesmo ímpeto, uma maldade intensa
e celestial apossando-me e tecendo meus vasos sanguíneos
e bebendo mandrágoras, a visão...
não é muito provável que a lua embaciada
adormeça amanhã. Lá vem Fernando Pessoa
e Lupicínio: os camaleões são eternos
e inatingíveis. Um relógio ancorado
numa estrela em vaivém e o mundo é varrido
pelos anjos de mau agouro, tricotar
teus cabelos minha amante buliçosa borboleta
talhada no peito, bebo tanino, farejo
um segredo num deserto improvável a busca
do bálsamo, olor das vestes rasgadas
nestes apontamentos absurdos encurtando
minha expíação cortes profundos e estreitos,
nosso futuro atávico, talismã tatuado sempre na dor...
Nelson Magalhães Filho
A Escola de Belas Artes da UFBA


MÍRCIA VERENA (Salvador, 1982), concluinte da graduação em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da UFBA, já vem há 4 anos desenvolvendo uma poética que convive entre a presença e a ausência, transita entre o sagrado e o profano, apropriando-se de um mundo imaginário que compartilha com o espectador seus sonhos mais intrigantes e seus segredos já quase relíquias de saudades incuráveis. Assim, Mírcia se permite a um espontâneo e lúdico passeio ao jardim secreto de sua infância, através de cores intensas e traços em rasgos francos e sensuais.
A dor não atende por seu nome. Procurei por tua sombra pela casa inteira. O corpo ali estático envolto em um novo dilema. Pasto de horas movediças. Debato-me por entre cômodos, reviro utensílios, arranco o assoalho. Não há traços de tua sombra. A tua morte foi um mal pressentimento. Encaro meus erros todos reunidos à volta de teu corpo. Pressiona-me a desconfiança de que a sombra permanecerá oculta. Desfaço-te de roupas, hábitos, lembranças. Desprendo a mobília do olhar. Emudeço lâmpadas, torneiras, janelas. Ponho a casa toda a procurar por ela. Assusta-me não saber onde encontrá-la. Desespero a mudar os nomes da aflição. Esqueço o meu próprio nome e mesmo assim não te mostras. Não te vejo mais onde estás. Tento não respirar para amenizar a dor, porém a respiração não se desprende de mim, latejante como um castigo. Dói-me infinitamente o silêncio mortificante de tua sombra ausente. Não importa o que eu tenha aprendido. A dor não me atende mais por nome algum.