Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, julho 19, 2010

Nelson Magalhães Filho. ANJOS BALDIOS 2009, acrílica s/tela, 140X200 cm

Nelson Magalhães Filho: o Blake de Cruz das Almas

Poemas selvagens: sem títulos, bulas ou domesticações. Como se, de repente, fossem as barbas do velho Whitman. Selvagens. Poemas que ecoam em outras (h)eras, outros vincos. Desdobram-se desordenados. Ou ordenam-se em camadas feito listras de felinos. E se você dormir, pimba! Eis que lhe tomam num trago. Então, desarme-se. O universo de Nelson é sem estrelas. Uma lua paira e ilumina os corpos sombrios, lânguidos e bêbados de quem satisfez o desejo. Fosse nos anos 80 e, bem ao estilo Caio F., um de seus autores prediletos, apelidariam-no dark. Ou, quem sabe, black(e). Não pelo lado escuro da Força, esclareça-se. Mais sinuosamente, eu diria. Nas sombras, escondem-se segredos, fachos de luz. O poeta tinge a palavra com sua visão/percepção de mundo. E tanto revela quanto nubla nosso olhar. É que traça linhas vindas do subconsciente. Ele, generoso, permite que a emoção suba e, tal qual um anjo, vagueie em seu voo torto, indeciso entre o céu e o inferno. Nelson é pintor, blogueiro (anjobaldio.blogspot.com) e poeta. Vem de Cruz das Almas para estabelecer sua mitologia romântica em versos brancos. É, de certo modo, nosso Blake baiano. E, se o bardo inglês fez de seu tigre a imagem de um Cristo revolto, a representação aqui será outra (“os tigres chegaram / os cascos descendo pelo peito”). Tigre, cachorro, cavalo e anjo são figuras poéticas que se metamorfoseiam constantemente para exprimir uma rebeldia nada redentora. Buscam, tal como na literatura de seu par, o instinto primário. Mas não acreditam na inocência. São céticos e conferem à Arte, por meio das inúmeras citações e intertextualidade, seu uivo de protesto. As referências são múltiplas. Sobretudo cinema, literatura, música e artes plásticas. Porém, atente, não quaisquer referências. Nelson gosta das mais baldias. Rebeldes, você me corrige. Então, junte-se Jim Jarmush com Morrisson, Radiohead com Blake, Wim Wenders com Jorge de Lima, Tom Waits com Dylan Thomas, Francis Bacon com Lou Reed, Piva com Basquiat, Nick Cave com Fassbinder... E perceba que nada é gratuito. Nem mesmo o amor. Em seu discurso de cachorro rabugento morto em noite chuvosa. Por que é isso que Nelson mais canta: o Amor. Ao redor, poucos lenitivos (“só o amor é mais amargo que seus olhos”). O perfume e o sexo embriagam. O cão não late mais, porém, seguindo a lição do mestre Leonard Cohen, permanece “deixando marcas de um amor sem cura”. O manto frio e negro nos encobre (“evoco as veias silentes / nesta noite em que encontro a morte”). O cachorro não dança (“sou de uma raça de cachorro ruim”). Está morto, mas cobra, aos notívagos, lágrimas doces. Um poema. Uma prece. Pois todos sabemos que mais dia menos dia os tigres chegarão. E não terá volta.


Lima Trindade

Mestre em Literatura pela UFBA, escritor e editor da Verbo21

http://www.verbo21.com.br/v3/



vamos continuar a tecedura meu amor

vamos continuar a tecedura meu amor

vomitando sangue todas as manhãs

embora as noites carnívoras pereçam sempre graves

com os cruciais arroubamentos das gralhas de azeviche

consumindo nossa quietude sem cessar

entorpecendo de esquivas lembranças

o logro do resplendor dos santos dilacerados

cheio de sândalo, nosso amor predador sorvendo

uma maré vermelha escarlate

Nelson Magalhães Filho



Fotos: Karla Rúbia
http://www.flickr.com/photos/karlamoraes/


DOLLS ANGELS - vídeoarte de Nelson Magalhães F. selecionado na X Bienal do Recôncavo









Neste vídeoarte com duração de 5 min e captado em HD, são questionadas as sutis relações
entre a infância e a perversidade. O artista produz uma série de imagens em movimentos,
apresentando um boneco sendo maltratado por um suposto afogamento, com a intenção
de provocar um sofrimento ou um sorriso irônico no espectador. O boneco, que é um
objeto de afeto e recordações, está submergido numa antiga lavanderia de quintal,
simbolizando um oceano misterioso ou até mesmo um útero materno desconhecido. Seus
olhos são estranhos, bolhas, pétalas diáfanas e arroxeadas cobrem parte de seu rosto. O
vídeo assemelha-se a uma composição pictórica, onde as cores remetem às telas do
próprio artista na série dos Anjos Baldios, que segundo a professora Alejandra Hernández
Muñhoz “não é uma produção ilusória premeditada, fake de imaginário fantástico destinado
ao escapismo dessa nossa atualidade permeada de simulacros, mas uma arqueologia
do surreal que visa re etir sobre a essência de uma humanidade desencantada”. É, portanto,
um desdobramento de sua pintura. O artista então faz uma reflexão sobre a violência
criando assim a sua poética do perverso-devaneio, sugerindo uma provocação ao recolocar
um símbolo da infância num contexto marginal. Como diz o vídeo-artista Yang Fudong
(n. 1971, China), “a violência e a morte são os lugares onde a vida começa”.

MAC comemora 14 anos com diversificada programação cultural

Para comemorar os 14 anos do Museu de Arte Contemporânea Raimundo Oliveira (MAC-Fsa), a divisão de Artes Plásticas e Literatura da Fundação Cultural Egberto Costa irá ofertar ao público feirense uma diversificada programação envolvendo artes visuais, performance e literatura em um só evento, que acontecerá no dia 22 deste mês de julho, às 20 horas.

Artes Visuais

O arquiteto, artista plástico e poeta baiano Almandrade expõe “A arte de Almandrade”; Rener Rama, artista plástico baiano, natural de Serrinha, expõe “Retrospectiva de Rener Rama”; O Grupo Úbere, formado por Tanile Maria, Leandro Ferreira, Josemar Antonio e Davi Bernardo, faz a sua primeira exposição, intitulada “Desloque-se”; Denilson (Coruja) Santana, historiador e artista plástico, natural e residente em Cruz das Almas, traz ao museu a exposição “Nicotinianas”; Estreando a coleção Rabiscos das Edições-MAC (coordenada por Maristela Ribeiro), Marcio Junqueira, poeta, desenhista e mestre em literatura brasileira, lança “Voilá mon cour”, livro de ilustrações.

Performance

O artista multimídia Vitor Venas, atualmente Mestrando em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA. É Integrante do Grupo de pesquisa Arte Hibrida e do Grupo X de Improvisação em Dança da UFBA. Desde 1992 tem produzido e participado de salões e eventos na área artístico-cultural. Apresentará a performance “o deserto” com utilização de raio laser.

Literatura

Voltando a ativa, a Edições-MAC lança cincos livros de literatura de uma só vez, entre poesia e ficção.

Pela coleção Flor de Mandacaru, coordenada por Telma Siqueira e Araylton Públio, o ficcionista Beldes Ramos lança “Uma Borboleta na Noite”; Dois livros de poemas, “Malabarismo das pedras” (Almandrade) e “Cachorro rabugento morto em noite chuvosa” (Nelson Magalhães Filho) com ilustrações de Devarnier Hembadoon, da coleção Aldebarã, coordenada por Roberval Pereyr, serão lançados; bem como o segundo e terceiro volumes da coleção Nova Letra, coordenada por Ederval Fernandes, dedicada a jovens escritores da cidade: “Apátridas” (Luciano Penelu) e “O beco de Tatá: crônica feirense” (João Daniel G. de Oliveira).

LOCAL: Museu de Arte Contemporânea Raimundo Oliveira, ...

DIA: 22/07/2010

HORÁRIO: 20 Horas

domingo, junho 06, 2010

disco, livro e filme para este fim de semana




Exposição ANJOS BALDIOS 2009

Perto de 200 pessoas compareceram no período em que a série anjos baldios 2009 ficou exposta na Galeria do Conselho, em Salvador.



DJ Buenas e o escritor Lima Trindade


Professora Alejandra Muñhoz

O fotógrafo e sociólogo Pedro Archanjo

A artista visual e videomaker Karla Rúbia

Meu filho Arthur (2º à esquerda) levou uma galera

O cineasta Joel de Almeida, o músico Sapiranga, a poeta Lita Passos e a atriz Dulce Valverde



O ator e diretor de teatro Ronaldo Braga

vem aí... samael:
novo vídeo da cia. dos anjos baldios
uma concepção de karla rúbia, messias barbosa e nelson magalhães filho
com cláudio fontoura e jamar oliveira
orientação: taygoara aguiar

terça-feira, abril 06, 2010

OS ZUMBIS DE MARIA MANDU
filme de Gabriel Lopes Pontes com sua turma do novocinemanovo
Sala Walter da Silveira
Hoje às 18h





terça-feira, março 16, 2010

Nesta sexta dia 19 às 17 h

sexta-feira, março 05, 2010

EL MIRDAD: FARPAS E PSICODELIA
CLICA AQUI:
http://elmirdad.blogspot.com/

Quinta-feira dia 11 de março às 20 h
MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA (MAC)
Feira de Santana - BA

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Exposição contemplada no Edital Portas Abertas para Artes Visuais 2009




A atopia dos anjos baldios:
um olhar sobre as pinturas de Nelson Magalhães
por Alejandra Hernández Muñoz*

Para muitos, a prática da pintura como dinâmica muscular, espessura matérica e repertório introspectivo, parece algo anacrônico diante da contemporaneidade pós-mídiática. Não para Nelson Magalhães. Suas telas provocam reflexões sobre a unicidade e autonomia da obra de arte, sobre os alcances da pintura enquanto processo e resultado, sobre o confronto entre representação e revelação. No momento em que, por todos os lados, nossa percepção é bombardeada pelo imediatismo das imagens eletrônicas, nossas emoções são manipuladas pelos efeitos especiais e nossa capacidade crítica é anestesiada pelo acúmulo de informações, estamos diante de uma pintura pura, que resgata o significado do pintar como ato existencial.

A prática do artista de pintar várias telas em conjunto, de uma maneira sincrônica, pode ser compreendida como uma negação da pintura enquanto objeto autônomo, gerando “famílias” de trabalhos com perfis de cor, estrutura e textura cotejáveis. Mas, paradoxalmente, a especificidade quase performática de cada tela, resultado de um contexto mental e gestual irrepetível, marca um caráter único em cada trabalho. Estas obras são uma afirmação tácita da perenidade das práticas informalistas da pós-guerra e da vigência das premissas neo-expressionistas da transvanguarda. O gesto visceral das pinceladas de Nelson não é calculado ou precedido de qualquer estudo preliminar, mas, sim, controlado por emoções de um espírito muito distante do aprazível e do contemplativo. Uma verdadeira sismografia do soturno, do sinistro, do melancólico e, por vezes, do trágico, que se revela como antítese da impressão retiniana. Não é pintura de observação mas de introspecção. Não é uma produção ilusória premeditada, fake de imaginário fantástico destinado ao escapismo dessa nossa atualidade permeada de simulacros, mas uma arqueologia do surreal que visa a refletir sobre a essência de uma humanidade desencantada.

A espacialidade desta pintura não é um dado dimensional concreto e preconcebido. O entendimento comum do espaço pode ser reduzido a duas acepções: como algo físico, “grande vazio” ou receptáculo de objetos, idéias e acontecimentos; como relação de coisas e ações, inclusive da interpretação subjetiva da nossa consciência. O espaço das pinturas de Nelson vai ao encontro dessa segunda acepção: algo conseqüente do próprio fazer pictórico e dos elementos ou figuras que emergem nesse processo. Entretanto, uma leitura transversal do conjunto dessas pinturas permite a apreensão de algo maior, que transcende o âmbito de cada tela. Não se trata de um “fio condutor” ou de uma narrativa, porém, da constituição de uma realidade atópica. A palavra atopia designa algo extraordinário, estranho ou, até, absurdo, sem a negação do topos (lugar em grego) como a palavra utopia, forjada por Thomas Morus no início do século XVI, que significa “lugar inexistente” ou aquilo que “não se encontra em lugar nenhum”. Das pinturas de Nelson emerge um lugar. O conjunto das telas revelam essa atopia, falam de algo que, embora desafie nossa lógica, existe. Invertendo a idéia de representação, numa operação do avesso do olhar, na melhor tradição expressionista, o artista desencava desse lugar atópico uma fauna misteriosa de figuras que emergem do acúmulo de pinceladas e que não descrevem nenhuma realidade aparente. São anjos baldios, quase ubíquos, definidos pelas camadas de tinta e intangíveis além do suporte da tela.

Alejandra Hernández Muñoz, uruguaia, residente em Salvador desde 1992, é arquiteta, mestre em Desenho Urbano e doutoranda em Urbanismo pelo PPGAU/UFBA. Desde 2002, é Professora de História da Arte da EBA/UFBA; tem diversos trabalhos de história e crítica de arte e arquitetura; foi curadora das mostras Pasqualino Romano Magnavita - 1946-2006: 60 anos de desenho de cidades (Galeria Cañizares EBA/UFBA, abr.2006), Visões do Labirinto (Casarão da EBA/UFBA, nov.2007), EBA 130 anos - Núcleo EBA Em Processos (Galeria ICBA, mar.2008) e Saccharum BA (MAM-BA, jun.2009), todas realizadas em Salvador.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

ANJOS BALDIOS 2009. Mista s/tela, 150X100 cm

Sangue meu lobuno


que teu plúmbeo olhar permeia meu encantamento


que teu traje rutilante de pedrarias


ostenta uma natureza vesuviana,


e no ocaso do delíquio com meu sangue de lobo


lambo teu ardente aroma de tâmaras.


Lamaçal do faminto


instrumento triste de suplício como círios oriundos,


da bárbara lua esta jornada crua me acompanha.


soberba liturgia, embrião-animal no livor


com meu sangue de lobo.


Nelson Magalhães Filho

terça-feira, fevereiro 09, 2010


Local: Galeria do Conselho
Av. Sete de Setembro, 1330
Abertura: 04 de março às 19 h

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

QUADRAGÉSIMA PRIMEIRA LEVA



PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

VEJA AQUI:

http://www.diversos-afins.blogspot.com/