Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, novembro 23, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/ papel, 70X50 cm


Despencam os moluscos
o nacarado dos olhos casquinando das madressilvas
lembro a rosa submersa da aurora.
Em aves aquáticas as horas apodrecem
arreganhando os dentes perfumados na rosa áspera
da noite indormida.
Ouvindo uma velha canção de Tom Waits
hoje rosno para o nada.

Nelson Magalhães Filho
disco, livro e filme para esse fim de semana




quarta-feira, novembro 21, 2007

MELODIAS DE AGOSTO

Nelson Magalhães Filho. Série A MORTE DIANTE DA LUA, 1998, mista s/ tela, 100X100 cm

CAVALOS DISCORREM PELA AFÁVEL NOITE
cavalos discorrem pela afável noite
até ficar insuportável beijá-los
- com a língua beijar cavalos -
o tempo não passa nunca
o tempo chora sangue de anjo sangue de cavalo.
ainda não sei o que tem dentro de mim
que não passa nunca e chora
sangue de cavalo sangue de anjo.
eu cambaleava pela afável noite de ontem
com a sede insuportável do beijo
vadiando pelos becos escuros da gamboa
vadiando pelas ruas estreitas
esculpidas de perturbados da gamboa.
aí eu começei o canto esganiçado
para você me ver assim: uma
muralha de dor,
uma carne tecida de flores
que vão ficando álgidas de aves marinhas.
meu amor que não conheço apenas me pasta
neste tempo perdido no mar negro
abortando cavalos e cadelas e rezando pro anjo.
vivo pastando no mar negro como peixe boi
estrela do mar negro percorro temporais selvagens
e cada vez que me perco pela afável noite de ontem
o oco de mim vai vomitando
um sentimento nostálgico de perdas
espelhos de mortos com seus ossos de medo.

Nelson Magalhães Filho

terça-feira, novembro 20, 2007

Escola de Belas Artes - UFBA


Feira de Santana - BA




Edgard Oliva

CAIXA Cultural Salvador
14 de novembro a 16 de dezembro

Diamanda Galás - I Put a Spell on You (live)





Nelson Magalhães Filho. ANGELS OVER CITY BLUES, 1998. Mista s/ lona, 130X110 cm

(Hoje de novo ouvindo Diamanda Galás)

Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.

Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, novembro 19, 2007


aniversário hoje


cena do vídeo ALICE

parabéns pablo sales

Novo formato da Bienal do Livro do Ceará será definido no I Encontro de Agentes Culturais – América Hispânica
CURADORIA
Floriano Martins (Fortaleza, Ceará, Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor e editor. Coordenador editorial da Coleção Ponte Velha, de autores portugueses, da Escrituras Editora, de São Paulo. Coordenador editorial da Coleção Biblioteca Bolivariana, da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, bem como curador da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará. Autor de uma antologia da poesia colombiana do século XX (em colaboração com Lucila Nogueira) e de uma antologia do surrealismo em todo o continente americano, livros publicados em 2007, respectivamente no Brasil (Recife, Edições Bagaço) e na Venezuela (Monte Ávila Editores, Caracas). Tradutor de autores como Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Alfonso Peña, Pablo Antonio Cuadra, Juan Calzadilla e Ana Marques Gastão. Entre seus livros de poesia, destacam-se Alma em chamas (Brasil, 1998), Cenizas del sol (Costa Rica, 2001), Tres estudios para un amor loco (México, 2006), e Teatro Imposible (Venezuela, 2007).

Dirige a revista virtual Agulha (http://www.revista.agulha.nom.br/) e é coordenador editorial do projeto Banda Hispânica, do Jornal de Poesia.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Xangai

Fotografia: NMF

meus dedos tremem: está
tão turvo lá fora desta casa
que as flores amarelas do jardim são afligidas
pelo mistério (ou uma espécie de sabor secreto),
enquanto esconjuro
a última lua que volta implacável
a reinar madura em meus olhos de ulha.
e aí aventurava-me só
pela fragância morna
dos obscuros girassóis à deriva
(indesejável e fascinante a partida sem dor),
conservando na lembrança
o alento dos insones.
solitude é um fado,
e cavalos selvagens me habitam nesta noite
além das estrelas insólitas com seus destroços
arremessando moréias devassas aquém de
minha insânia.

Nelson Magalhães Filho




disco, livro e filme para esse fim de semana








hoje tem robertinho lago

quinta-feira, novembro 15, 2007

A Escola de Belas Artes da UFBA convida

Ciclo de palestras e debates com profissionais do Museu do Inconsciente do Rio de Janeiro.
De 23 a 24 de novembro


VISÕES DO LABIRINTO
Abertura da Exposição dia 19 de novembro às 19h
Visitação até 30 de novembro de 2007



IMS-SP PROMOVE CURSO POESIA E POLÍTICA COM CLAUDIO WILLER DE 26 A 28 DE NOVEMBRO

O Instituto Moreira Salles de São Paulo (rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis) promoverá nos dias 26, 27 e 28 de novembro (segunda, terça e quarta), às 20hs, o curso Poesia e política, ministrado pelo poeta Claudio Willer. As inscrições custam R$ 100 (desconto para estudantes, funciona´rios e correntistas do Unibanco) e devem ser feitas diretamente no centro cultural.
O curso abordará relações entre poesia e política do romantismo à modernidade, passando pelo simbolismo. As três sessões, com duas horas de duração cada, abrangerão o período do final do século XVIII até a segunda metade do século XX, “no qual fazem sentido questões como a da arte de mensagem ou de criação livre e invenção, populismo versus elitismo, engajamento e alienação, esteticismo ou práxis”, segundo Willer. Serão examinados temas como o misticismo revolucionário de William Blake, Charles Baudelaire e a rebelião individual, as subversões simbolistas, a coerência de Arthur Rimbaud, inovação e conservadorismo no modernismo brasileiro, a geração beat, entre outros.
Sobre Claudio Willer – Poeta, ensaísta e tradutor, Claudio Willer nasceu em São Paulo, em 1940. Publicações mais recentes, Estranhas Experiências, poesia (Lamparina, 2004); Volta, narrativa em prosa (Iluminuras, terceira edição em 2004); preparou Lautréamont - Obra Completa - Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas (Iluminuras, nova edição em 2005) e Uivo, Kaddish e outros poemas de Allen Ginsberg (L&PM, nova edição de bolso de 2005). É autor de outros livros de poesia e da coletânea Escritos de Antonin Artaud, esgotados. Consta em antologias e coletâneas, brasileiras e em outros países. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela ligada ao surrealismo e à geração beat. Ocupou cargos públicos em administração cultural. Presidiu por vários mandatos a UBE, União Brasileira de Escritores. Deu inúmeras palestras, cursos e oficinas literárias. Co-edita, com Floriano Martins, a revista eletrônica Agulha, www.revista;agulha.nom.br. Mais informações em:
www.secrel.com.br/jpoesia/cw.html.

Poesia e política
Dias 26, 27 e 28 de março, às 20hs
Valor: R$ 100. Estudantes, correntistas e funcionários do Unibanco têm 50% de desconto.
Obs.: As inscrições já estão abertas.
Instituto Moreira Salles-São Paulo
rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis; tel.: (0 xx 11) 3825-2560
Estacionamento gratuito no local
http://www.ims.com.br/


Mais informações para a imprensa pelo telefone (0 xx 11) 3371 - 4455
Claudio Willer
cjwiller@uol.com.br
www.secrel.com.br/jpoesia/cw.html


agulha - revista de cultura
fortaleza, são paulo
http://www.revista.agulha.nom.br/

direção: floriano martins & claudio willer

quarta-feira, novembro 14, 2007

NICO - Frozen Warnings (1969)

LUCIANO PASSOS (04 de maio de 1944 - 14 de novembro de 1997)

Como dizia Fernando Pessoa, "morre jovem o que os deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares..."
Agora pela noite, ouço a voz sombria de Nico em "The marble index-69" e "Drama of Exile-81", e penso no meu amigo Luciano Passos, que foi embora muito cedo levado pelo amor cruel dos anjos.


CAVALO ESTRELADO

A noite é um cavalo estrelado
Que pasta nos becos do mundo
E arrasta entre solene e vagabundo
O rabo anônimo do pecado.
A noite é um negro cavalo

Com olhos molhados de desejo
Exalando amor pelas narinas
Do gozo escravo e vassalo.
A noite relincha alto

Nos quartos das putas velhas
E deixa na testa do asfalto
O retrato do seu coice.
A noite trota cansada

Farejando a imutável madrugada
- égua no cio, fogosa e alazã -
e deixa-se agasalhar já semi-morta
pelas crinas amarelas da manhã.

Luciano Passos

nesta sexta tem show de meu amigo robertinho lago & fabrício salomão


Casa da Cultura Galeno d'Avelírio - Cruz das Almas - BA

JORNADA LITERÁRIA DO SESC-BA
INSCRIÇÕES ABERTAS, inclusive para COMUNICAÇÕES.
Ocorrerão PALESTRAS, BATE-PAPOS, MINI-CURSOS e OFICINAS muito
interessantes. SANDRO ORNELLAS também estará na programação com uma OFICINA sobre
ETNOPOESIA e no BATE-PAPO COM O ESCRITOR
De 26 a 30 de novembro- 2ª Edição, intitulada: "Redes Literárias e novos a(u)tores sociais".
Nosso objetivo é valorizar ainda mais a produção e a leiturade textos que versam sobre o cotidiano das minorias identitárias como maiorias sociais, para pensar a Literatura enquanto lugar de cruzamentos e diálogos culturais em diferentes contextos e situações.
Salientamos que estamos com inscrições abertas para apresentação de trabalhos de estudantes de graduação e pós-graduação nas seguintes mesas de debate:
1. Literatura e crítica cultural
2. Literatura e mercado
3. Literatura e mídias
4. Literatura e outras linguagens
5. Literatura e democratização dos saberes
6. Literatura e discurso das minorias.
Informações sobre as atividades que serão desenvolvidas durante o
evento - Tel. 3254-3916
Informações sobre inscrições - Tel. 3347-6211
3347-7330
E-mail: eventos@eventoseventos.com.br
Atenciosamente,
Suzane Lima Costa
Conceição Silva
Cláudia Matos: coordenadoras do evento
Blog pessoal de SANDRO ORNELLAS:
http://simuladordevoo.blogspot.com/


LAMPIRÔNICOS na Zauber Multicultura
(Lad da Misericórdia , atrás da prefeitura)
Show de lançamento do terceiro disco do Lampirônicos
Horário:23:00h
Zauber Multicultura
quarta 14 /11

terça-feira, novembro 13, 2007

Foto: NMF

Invernia nas pastagens.
Corria como as águas desaguando no mar
em grande intensidade.
As ruas despovoadas e escuras.
A noite expira sua compaixão,
diante dos cães rudes,
os dias tem sido embriagados
das impurezas da lua
e minhas veias caminham no lodo noturno deste inverno.
Eu sei que a morte se aproxima entre flores vindouras
nos dentes do minotauro.
Nelson Magalhães Filho

Tom Waits - Downtown Train -1985

segunda-feira, novembro 12, 2007

Foto: NMF

TEM UM POMBO VERDE NAS SUAS COSTAS
para Judite Pimentel, depois que li A Senhora da Torre

tem um pombo verde nas suas costas Judite,
quase cabia sua excitação encrustada
na briga contra os lírios cultivados
no frasco de esperma quando disse a avó
mas logo virou-se irada e dormiu Judite
muito tarde já.
com muita delicadeza a avó,
de guardar selos de cartas antigas
e refresco de abacaxi, importunou-se
por um sol bem longe já vistoso
ou colocando os lírios de vingança no jarro
verde da sala de visitas que nunca
ludibriar vinham nada,
ainda limpou a boca num lenço bordado
e aguou algumas bolachas de batismo
no bolso da camisa enquanto seus olhos
viravam ágatas que encruavam
por toda sua pele lânguida
e a unha do pé esquerdo encravada
pensou no oculto dos poemas não escritos,
quase um anjo no quarto onde dormia a avó
na tarde em que desfiava o piano
entre enormes talagadas de abacaxi: a
sibila entre as cartas antigas comia
os lírios para depois parir felinos
purgativos.

Nelson Magalhães Filho

domingo, novembro 11, 2007

Museu de Arqueologia e Etnologia
Pça. Terreiro de Jesus
12 de novembro às 19 h

sexta-feira, novembro 09, 2007


hoje tem um show imperdível dos koyotes

quer sacar mais sobre rock'n'roll?
visite o blog do meu amigo miguel cordeiro:
http://www.miguelcordeiroarquivos.blogger.com.br/