Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, agosto 23, 2016


Plínio Marcos de Barros ( 29 de setembro de 1935, Santos, SP -  29 de novembro de 1999, São Paulo, SP)   foi um grande escritor brasileiro, ator, diretor e jornalista, autor de inúmeras peças de teatro, escritas principalmente na época do regime militar.


Carta do filho de Plinio Marcos, Leo Lama
Meu pai morreu

Dia 19 de novembro é aniversário da morte do meu pai, escrevi este texto no
dia em que ele morreu: 19 de novembro de 99.

Meu pai morreu. Todo pai morre. Agora estou aqui pensando: o que foi que meu 
pai me deixou? Apartamento? Não. Carro? Nem uma bicicleta. Dinheiro? Ele não
conseguia pagar nem as próprias contas. Mas pagava a dos filhos. Roupas? Só
um chinelo velho, mas meu pé é maior. Sem testamento, sem herança, sem nada?
As peças. As peças de teatro? De quem são as peças de teatro? Meu pai era
escritor. Escritor de teatro. Teatro? Teatro dá dinheiro. Tem gente que
escreve peça pra ganhar dinheiro. Não, meu pai não. Não ganhou muito
dinheiro com teatro. O que ganhou, gastou. Deu dinheiro pra muita gente. Meu
pai não era um bom administrador. Era um "maldito", diziam, um "marginal",
mas não era bandido. Por que ele era maldito, afinal? Será que não pensava
nos filhos? Por que não escreveu peça pra ganhar dinheiro? "Ninguém tem
direito de pedir a um artista que não seja subversivo.". Meu pai escrevia
sobre puta e cigano sem dente. Puta, cigano sem dente e cafetão. Puta,
cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. Puta e
cigano sem dente? Puta, cigano sem dente e cafetão é chato, porra! Puta,
cigano sem dente e presidiários não dava dinheiro. Puta, cigano sem dente e
desempregados não tinha "patrocínio". Mas eu queria tênis americano, eu
queria camisa Lacoste, camisa Hang Ten.

Meu pai tinha que ganhar dinheiro. Por que ele insistia em escrever peças
sobre puta, cigano sem dente, cafetão e presidiários? Ele insistia. Puta,
cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. E o ator e
Jesus Cristo e nada de "comédia comercial". Mas eu queria o meu "All Star",
eu queria ter todos os discos dos Beatles. "Pai, me dá dinheiro pra comprar
uma guitarra!" E eu tive, eu tive a tal guitarra, eu comprei todos os discos
dos Beatles com o dinheiro dele (depois tive que comprar tudo de novo em CD
com o meu dinheiro e agora dá pra baixar de graça na internet). Calça boca
fina, camisa Hang Ten. Onde ele arrumava dinheiro? Onde ele arrumava
dinheiro pra me comprar tênis "All Star"? Ele achava que isso era "lixo
americano". Ele achava que essa merda importada só servia pra aumentar a
nossa alienação. Meu pai era generoso. Ele não ia deixar de me dar uma
coisa que eu queria, só porque ele achava que o que eu queria era imposto
pela sociedade de consumo. Ele tentava me orientar, mas respeitava minha
opinião de adolescente alienado. Onde ele arrumava dinheiro?

Era época de ditadura. Escrever sobre puta, cigano sem dente, cafetão e
presidiários, incomodava os "poderosos". Porra, ainda mais essa! Já escreve
sobre coisa que não dá dinheiro, mas além de não dar dinheiro, ainda é
proibido? "Pai, me dá dinheiro pra comprar disco do Bob Dylan!".

Meu pai fez novela, fez Beto Rockfeller. Mas Beto Rockfeller não conta, Beto
Rockfeller era A novela, tinha a cara dele, era revolucionária. Ele fazia o
Vitório, o melhor amigo do Beto. Ele ganhou um dinheiro, me comprou um
tênis, uma guitarra, um... Mas A novela era na Tupi. A Tupi faliu. Meu pai
foi fazer novela na Rede Globo: "Bandeira 2". Mas a Globo é no Rio, o Rio
tem praia, ele cabulava as gravações e ia pra praia: "Novela é chato pra
caralho, porra! O direito da gente coçar o saco é sagrado.", ele dizia. Ele
ia pra praia e lá ficava indignado porque naquela época a Globo não punha
negros nas novelas e quando punha era nos papéis de escravo ou mordomo. Meu
pai escreveu no jornal "A Última Hora" do Samuel Wainer, onde ele
trabalhava, que a Globo botou a Sônia Braga dois meses tomando sol pra ficar
escura, em vez de chamar uma mulata pra fazer "Gabriela". A Globo não
gostou. Os "poderosos" da Rede Globo não gostaram. Fizeram ameaças, juraram
de morte. Em fim, a Globo não dava mais. Quando ele tava por lá, ele bem que
quis escrever novela. Afinal, eu queria dinheiro pra comprar tênis, disco,
guitarra. Mas novela de puta, cafetão e cigano sem dente? Não, novela de
puta, cafetão e cigano sem dente não dá. Se fosse cigano com dente,
musculoso e mau ator, aí dava. Agora, cigano sem dente, pobre e fudido, não
dá. Então não dá. "Na televisão brasileira, artista estrangeiro morto
trabalha mais do que artista brasileiro vivo." Tudo bem, não podia fazer
peça de puta porque a ditadura não gostava, não podia novela de cigano
pobre, fudido e sem dente porque a T.V. não queria. Então o que que podia?
Não podia nem chamar a Rede Globo de racista, nem nada. A sinopse que ele
fez pra uma novela quando finalmente a Globo chamou ele, era de uma tribo de
ciganos que estupravam as filhas dos empresários e...bem, não aprovaram. E
as portas iam se fechando. E a ditadura ali, descendo o cassete. E eu queria
o meu tênis "All Star"! "Pai, porra, pai, eu quero dinheiro pra comprar time
de botão!" Mas enquanto os "poderosos" iam dizendo: Não! Não! Não! Ele ia
ganhando o respeito dos humildes de coração, um "povo que berra da geral sem
nunca influir no resultado", um povo fudido, os marginais, as putas, os
ciganos sem dente, os presidiários, um povo que não aparecia na T.V. "Pobre
na Rede Globo almoça e janta todo dia". Pobre na Rede Globo tem dente,
favela na Rede Globo não tem rato. Esse povo não era o povo dele. O povo
dele era entre outros, os sambistas, não esses de agora, de terno Armani,
cercados de loiras recauchutadas, mas, os sambistas das escolas de samba de
São Paulo. Os sambistas marginalizados, os que nunca gravaram CD. O Zeca da
Casa Verde, o Talismã, o Jangada, o Toniquinho Batuqueiro, o Geraldo Filme,
enfim, os que morrem na merda. "Silêncio, o sambista está dormindo, ele foi,
mas foi sorrindo, a notícia chegou quando anoiteceu...".

Então a solução era fazer show com os sambistas. Meu pai contava histórias e 
os sambistas cantavam suas músicas. Mas os sambistas eram crioulos. Negros?
Negro não podia. Em plena ditadura, Plino Marcos e "a negrada"? Que papo é
esse? Poder, podia, mas ninguém queria ver. "A burguesia não me quer", ele
dizia. Não podia peça de puta e novela de cigano sem dente pobre e fudido,
não podia dizer que a Globo era racista e ninguém queria ver show com "a
negrada". Então o que que podia? "Pai, me dá dinheiro pra comprar figurinha
do álbum Brasil Novo!"

A ditadura quando eu tinha 7 anos tava em todo lugar, em cada esquina, no
meio de cada casal que fazia "amor com medo", nos porões do Doicodi e nas
torturas atrozes que muitos sofriam e eu lá: "Pai, me leva na Expoex, pai,
me leva na Expoex! A Expoex é a exposição do exército! Eu quero ver os
soldados, pai! Eu quero ver os tanques!" E ele me levava. Senão eu chorava.
Eu chorava se eu fosse censurado e não pudesse ver a Expoex.

Quando eu tinha uns 12, 13 anos, lá estava o ônibus da escola pronto pra
partir pra Porto Seguro com todos os meus amiguinhos dentro e os pais, do
lado de fora, dando tchauzinho. E um amiguinho meu perguntou: "Quem é seu
pai?" Eu não tive dúvida: "Meu pai é aquele!" E o meu amiguinho: "Aquele de
terno e gravata? Aquele que tá conversando com o meu pai?" E eu: "É,
aquele." O meu amiguinho gritou: "Pai, esse aí é o pai do Leo!" E a
professora ouviu. Não, meu pai não era aquele de terno e gravata. Meu pai
era outro. Era o que todo mundo tava chamando de mendigo. Meu pai era aquele
de macacão e chinelo! Gordo de macacão e chinelo! "O pai do Leo é mendigo, o
pai do Leo é mendigo!" Afinal, quem trabalha tem que usar terno e gravata.
Naquela época, um moleque de 12, 13 anos, era um tapado. Ou isso era
característica minha? "Pai, por que você não trabalha? Pai, por que você
dorme até meio dia? Pai, por que o pai do Paulinho tem carro e você não? Por
que você chega de madrugada em casa? Pai, por que você anda de macacão e
chinelo? Pai, me dá dinheiro pra comprar..." E o meu pai me dava dinheiro.
Eu estudava em escola de "burguês". Eu estudei nas "melhores escolas". E
olha que o meu pai odiava escola. "A cultura nas mãos dos poderosos
constrange mais do que as armas; por isso, a arte e o ensino oficiais são
sempre sufocantes", ele dizia. Ele saiu da escola na 4ª série do primário.
Ele era canhoto. Na escola, as professoras o obrigavam a escrever com a mão
direita. Ele fugiu da escola, ele sempre foi da esquerda. Era chamado de
analfabeto. Com 21 anos escreveu "Barrela!". "Me chamavam de analfabeto,
como se isso fosse privilégio meu, neste país." Meu avô queria que ele
trabalhasse no Banco do Brasil, mas ele queria é subir num banco no meio da
praça e fazer números de palhaço. A família chegou até a pensar que ele era
débil mental. Meu pai foi pro circo. Ele amava o circo. Foi ser palhaço de
circo. Era o palhaço Frajola. A escola dele era o circo, a minha era escola
de "burguês". Mas como ele pagava a minha escola?

Foi preso, foi solto, ameaçado, escrevia em jornais e revistas, quase todos
que existiam. Foi despedido de todos. A censura não queria meu pai
escrevendo em lugar nenhum. O que fazer? Sair do país? Ele não falava
direito nem o português. O que fazer? "Pai, me dá dinheiro pra comprar uma
calça Soft Machine!".

Uma vez o meu pai tava com uma dívida muito grande, tava com dificuldade de
pagar as prestações de um apartamento que ele comprou pra gente. Daí um belo
dia a Ford ligou pra ele, convidando pra fazer um comercial. Era uma puta
grana, dava pra pagar as dívidas e ficar bem tranqüilo por uns tempos. Meu
pai não fazia comercial.

Foi vender livro na rua. Nas portas dos teatros, nas portas das faculdades,
nos bares. Foi vender livro na porta de teatros aonde se apresentavam
artistas piores do que ele. Ele mesmo editava os livros, ele mesmo ia
vender. E podia? Não. Não podia. Várias vezes ele foi expulso pelo "rapa"
como um camelô comum. E ele chorava? "Perseguido, o caralho! Eu não sou
nenhum mosca-morta. Eu fiz por merecer. Fui uma pessoa que aproveitou bem a
fama. Eu apedrejei carro de governador, quebrei vidraça de Banco. Foi uma
farra. Não teve mau tempo." Tinha. Tinha mau tempo, mas ele não reclamava,
eu nunca ouvi o meu pai reclamando da vida. Eu nunca ouvi o cara dizer que a
vida tava difícil, ou que era "foda". Não. Ele só reclamava das injustiças.
Ele berrava contra as injustiças, os preconceitos, a apatia. Meu pai é o
Plínio Marcos, porra! Bela merda, tem gente que nunca ouviu falar. Pra
muitos era só um fudido que não deu certo na vida, andando feito mendigo
pelo centro da cidade. Já morreu. Não era melhor do que ninguém. (Não?)

"Tudo se consegue com esforço; não se chega a lugar nenhum sem caminhar." 

Com 15 anos eu quis sair da escola. Ele disse: "Sai logo dessa merda, eu te
sustento até você encontrar sua vocação!" Eu saí, eu saí daquela merda na
metade do 1º colegial. Acho que qualquer ser humano com o mínimo de
sensibilidade, sabe: o ensino do jeito que é, faz mal pra saúde.

Eu devia ter uns 17 anos, era de madrugada. Eu morava com ele. Eu tava na
mesa da sala com o violão, triste, querendo encontrar a minha vocação, sem
saber o que dizer, inibido, pensando em todos os artistas que eram muito
melhores do que eu. Meu pai levantou pra tomar água, me viu ali, não disse
nada. Foi até o escritório, voltou com um livro e leu um poema pra mim. "O
corvo" do Edgar Allan Poe. Não disse nada, só leu a poesia. Não foi o
conteúdo, foi o tom da voz dele, aquela voz doce que ele tinha. Ele
declamava e eu ouvia como se ele me pegasse no colo. Foi dormir e me deixou 
ali, ouvindo o corvo dizer: "para sempre!". Eu virei escritor, com 21 anos
escrevi "Dores de Amores". Meu pai era um incentivador, idolatrava os
filhos. Queria ser mergulhador só porque o Kiko, meu irmão, é. A Aninha,
minha irmã, era tudo pra ele. Eu fiz vários shows com ele, pelas faculdades,
pelos teatros, pelos bares. Ele contava histórias e eu tocava violão. Meu
pai era generoso, violento, essencial, amava, amava tanto as pessoas que
chegava mesmo a odiá-las. Lutava, berrava e me acordava. Meu pai não me
deixou apartamento, carro, dinheiro, bicicleta. Nem o chinelo dele me serve.
Eu tive e tenho que ganhar o meu próprio dinheiro. Até hoje, muito pouca
gente quer montar as suas peças e muito pouca gente quer assistir. Meu pai
já não precisa mais vender livro na rua, pra quem não quer comprar, ou pra
quem compra só pra "ajudar". O que eu mais queria é que ele me ouvisse
agora: "Pai, você não me deixou nada que se possa enxergar. Nem carro, nem
apartamento, nem bicicleta, nem chinelo. Me deixou a sua indignação, um
pouco do seu temperamento, a lembrança de ver você acordando todo dia com 
uma puta força de vontade, com uma puta vontade de viver, sempre alegre,
sempre fazendo piada das próprias desgraças, sempre dando tudo que ganhava
pros filhos, sem nunca acumular porra nenhuma." E se ele me escutasse ele
diria, com um sorriso malandro sem dentes, segurando as lágrimas: "Ê, Leo
Lama!" Meu pai não sabia receber elogios. Mas se ele me ouvisse agora, eu
diria:

Pai, eu preciso te contar, no seu velório foi muita gente, pai. No seu
velório, estiveram os maiores artistas do país. Médicos, políticos,
advogados, empresários, fãs, gente do povo, crianças e os sambistas. Os
sambistas cantaram sambas em sua homenagem, pai. Suas mulheres, seus amigos,
seus inimigos, todos nós, todos nós te aplaudimos quando o seu caixão foi
colocado em cima do carro de bombeiro. Eu tava segurando uma aba, o Kiko
outra. Você foi cremado, pai. Seus amigos fizeram discursos emocionados,
disseram: "Plínio Marcos, um grito de liberdade!" Nós jogamos suas cinzas no
mar de Santos. Na ponta da praia, onde você passou sua infância. O
Jabaquara, seu time, ficou na porta do pequeno estádio, uniformizado, com a
mão no coração, vendo o cortejo passar. O povo na areia batia no surdo e
entoava um canto mudo no crepúsculo santista e nós no barco deixávamos você
escorrer pelos nossos dedos como se você nem tivesse existido. Eu ainda quis 
te achar no meio do mar, mas de repente já era só o mar. E você foi, como
todo mundo vai.

É isso aí, pai: tanta gente te amava. Você sabia? Acho que ninguém te amou
tanto como a minha mãe. O amor dela ecoa em mim.

Mas, e eu, pai? E eu? Será que eu vou ter a mesma fibra que você? Eu não
gosto de viver como você gostava. Eu não tenho a sua coragem. "A poesia, a
magia, a arte, as grandes sabedorias não podem habitar corações medrosos."
Eu acho que eu vou me vender, pai, eu acho que eu já sou um vendido. Eu só
queria ser essencial, essencial como você. É difícil. Eu reclamo. A vida tá
uma bosta! Tá difícil de encontrar pessoas essenciais, pai. As pessoas só
falam e pensam no que é supérfluo. Eu não tenho assunto. Eu me sinto
sozinho. Eu não sei sobre o que escrever. O mundo tá se destruindo, tem
muita gente fudida, tem muitas festas e muita fome. Que indecência, pai, que
vergonha que eu sinto desse tempo que eu vivo. Eu sei que você não tem saco
pra choramingo, pai, mas me deixa desabafar, pai, só hoje, me deixa te falar
sobre o sonho dessa gente, você sabe, essa gente, os "homens-pregos", fixos 
no mesmo lugar. Essa gente quer ter carro, pai, casa com piscina, essa gente
quer ser rica e famosa, essa gente quer ser musculosa e quer ter bunda, essa
gente diz que acredita em Deus e fode ele, essa gente não quer ser
essencial, pai, essa gente... essa é a minha gente, pai, às vezes eu me olho
no espelho e me acho parecido com essa gente. Me perdoa.

Um beijo do seu filho, Nado, que ainda usa o nome artístico que a gente
inventou juntos: Leo Lama.


Leo Lama é músico, poeta, dramaturgo, diretor, escritor, roteirista e palestrante.


quinta-feira, julho 28, 2016

domingo, julho 17, 2016

Dia 21 às 20h estarei participando da Exposição Comemorativa dos 20 anos do MAC - Museu de Arte Contemporânea Raimundo Oliveira - Feira de Santana - BA




O vocalista Alan Vega, do grupo Suicide, considerado um dos personagens mais influentes da história do rock e um dos pioneiros do punk, morreu aos 78 anos, enquanto dormia, informou neste domingo (17) o músico Henry Rollins.

Morreu o cineasta argentino-brasileiro Hector Babenco (1946-2016)

terça-feira, julho 05, 2016


Abbas Kiarostami (1940-2016)

terça-feira, maio 24, 2016

domingo, maio 15, 2016



Nelson Magalhães Filho - da série ANJOS BALDIOS


CANÇÃO DOS CÃES DE LUZ

Naquela tábua horizontalmente assentada
onde indivíduos maus incriminam-se ao partir do dia,
e tantas aspersões com gotas marejadas das lamúrias
em cada lugar ermo desta cidade indecorosa...
Num só instante daqueles olhos iluminados
pela lua arroxeada e  estrelas vermelhas: fomos
todos nascidos do mesmo pai e da mesma mãe
entrelaçados pelas pontas dos cabelos
bruxuleados por um breve laço de amor: sim,
poesia para deliciar nossas almas de lírios selvagens
ó fragmento orgíaco da purificação, a brutalidade
irada dos viajantes sombrios
embriagou-me naquela mesa
sob estrelas vermelhas queimadas em minha mente.
Não foi necessário prolongar meus pés nus: ainda
não era o tempo das tormentas
pois a ansiedade dos lírios selvagens não são para sempre
e nosso amor será rasgado pelo veneno
e pelos cometas ó divina inspiração: êxtase
supremo da libertação a que nada
falta das forças de nosso inferno!
Os amigos não precisam ser lamparinas
para nos conduzir até o jardim.
E quando a madrugada foi violentada por minha euforia
acendi o sol negro, derrubei rezas mortíferas,
penetrei  as mãos no fundo do coração
e arranquei por fim a beleza trágica
de beijar a inquietude de meu demônio.


Nelson Magalhães Filho, em As Luminárias, 1982

quinta-feira, janeiro 14, 2016



De 18 a 27 de janeiro, o Cineclube Mário Gusmão realiza a Mostra Dib Lutfi. A mostra homenageia um dos mais importantes câmera e diretor de fotografia do Brasil, uma figura central do Cinema Novo: o incrível Dib Lutfi.

A mostra terá ao todo 6 sessões, exibindo e debatendo importantes obras do cinema brasileiro que Dib Lutfi participou como câmera/diretor de fotografia. As sessões começam às 19 horas, sempre acompanhadas de debate com convidados após as exibições. Confira a programação:

Segunda-feira (18/01): "Êsse Mundo é Meu", um filme de Sérgio Machado;
Terça-feira (19/01): "O Desafio", um filme de Paulo César Saraceni;
Quarta-feira (20/01): "Os Deuses e os Mortos", um filme de Ruy Guerra;
Quinta-feira (21/01): "Carreiras", um filme Paulo Hermida;

Terça-feira (26/01) - Sessão Especial: "Fome de Amor", um filme de Nelson Pereira dos Santos;
Quarta-feira (27/01) - Sessão na Praça: "Quando o Carnaval Chegar", um filme de Cacá Diegues;


Para realizar a ‪Mostra Dib Lutfi‬, o Cineclube Mário Gusmão conta com o apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Cineclube Mário Gusmão e a produção Azul lançam na próxima quinta-feira, 10/12, A Morte do Cinema, dirigido por Evandro de Freitas.A sessão especial será no Cine Theatro cachoeirano, às 19 horas, com a presença do diretor e do elenco.

Sinopse:
Quando levantou a casa, o sonho viveu lá. Depois morreu e tudo mudou: ficou a ruína. Dizem que ruína é coisa alguma, mas não é verdade. Ruína é a casa do abandono.

No elenco estão Adilson Nascimento, Edith Conceição, Raimundo Cerqueira, Roque Araújo e Samir Suzart.

A Morte do Cinema, filme de Evandro de Freitas, é uma realização da produtora Azul e conta com o apoio do Governo do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura do Estado.

Não perca!


quarta-feira, dezembro 02, 2015

segunda-feira, novembro 09, 2015


De 10 a 14 de novembro, o Cineclube Mário Gusmão realiza a Mostra Transáfrica, reunindo filmes de diretores africanos e brasileiros propondo um diálogo sobre a África. As exibições, acompanhadas de debates, vão ocorrer sempre a partir das 19 horas, no auditório do Centro de Artes, Humanidades e Letras (Cahl/UFRB).

A Mostra Transáfrica terá 5 sessões, com 5 longas e 1 curta-metragem. Os diálogos sobre África se darão através de dois pontos de vista: dos diretores africanos, com três filmes que discutem o lugar da fala em sociedades africanas; dos diretores brasileiros, que reinventam o continente africano aqui no Brasil.

Confira a programação por dia:

Terça-feira (10/11): “Ceddo”, de Ousmane Sembène. 
Debate com Prof. Túlio Muniz (UNILAB);

Quarta-feira (11/11): “Keita”, de Dani Kouyaté. 
Debate com Profa. Ângela Figueiredo (UFRB) e Profa. Cristiane Souza (UNILAB);

Quinta-feira (12/11): “Bamako”, de Abderrahmane Sissako. 
Debate com Prof. Kabengele Munanga (visitante UFRB) e Profa. Amaranta Cesar (UFRB);

Sexta-feira (13/11): “Alma no Olho”, de Zózimo Bulbul e “Leão de 7 Cabeças”, de Glauber Rocha. 
Debate com Prof. Jacques Depelchin (visitante CEAO/UFBA) e Profa. Cyntia Nogueira (UFRB);

Sábado (14/11): “Terra deu, terra come”, de Rodrigo Siqueira.
Debate com Makota Valdina Pinto, educadora e líder religiosa, e Elen Linth, cineasta;


Cineclube Mário Gusmão, para realizar a Mostra Transáfrica, conta com o apoio do Centro de Artes, Humanidades e Letras – CAHL/UFRB, do Mestrado Profissional em História da África, da Diáspora e dos Povos Indígenas/UFRB, da Cinemateca da Embaixada da França no Brasil e do Institut Français . Além do apoio financeiro do Governo da Bahia, através do Fundo de Cultura do Estado da Bahia (FCBA).


Contamos com sua presença!

quarta-feira, outubro 28, 2015

Através de uma parceria com o Cineclube Mário Gusmão e o Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB, o XI Panorama Internacional Coisa de Cinema será realizado, pelo quarto ano consecutivo, simultaneamente em Salvador e Cachoeira.
A programação em Cachoeira acontece de 29.10 a 03.11 (quinta a terça), no Auditório do CAHL e no Cine Theatro Cachoeirano, envolvendo sessões especiais, competitivas nacional e baiana, debates com os realizadores e programação musical, além de oficina, conferência e do Seminário 100 anos de Walter da Silveira. 
Para saber mais informações sobre a programação: http://coisadecinema.com.br/xi_panorama/cachoeira

sábado, setembro 26, 2015


SOBRE A PEÇA
A peça apresenta um casal em crise permanente e discute a dificuldade da fidelidade e da confiança. Em um jogo de medos, mentiras, armadilhas e declarações de amor eterno e de uma suposta liberdade, o casal acaba arrastando para o esgoto, suas almas, e junto destruindo toda sua humanidade.

Cia Atores do Sol apresenta

SOMOS TODOS LÁZAROS
DIREÇÃO - R.B.Santana
Dramaturgia - Cia Atores do Sol

De 13 de Outubro à 26 de Novembro 20 hs
Na Casa Preta
( Bairro Dois de Julho )

terça-feira, agosto 25, 2015


ainda resta acender um cigarro, comer uma cereja
afogueada. é foda
esse palor noturno e belo, e voragem
é o esquecimento que desconsola quando chove
e desta antiga janela
enxergo lá embaixo meus pensamentos ultrapassarem
as ruas encharcadas de receio.
desesperadamente sonho com tuas mãos
ocas e sinuosamente teus seios envoltos
em flores selvagens despedaça minha agonia.
não há mais amor na noite que estronda
sem ninguém lá fora que me acene um adeus
ou um rinoceronte vadio que ronda
meu azedume de cerveja quente
e vinho barato:
pedras incrustadas nas gretas das portas,
um amor sombrio que dos seus beijos felinos
vem os jasmins: desejo é sempre
cálido remorso.

Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, maio 07, 2015



O Cine Virada é o festival interno de cinema da UFRB organizado pelo PET Cinema, pensando a visibilidade e reflexão sobre a produção do curso de Cinema e Audiovisual. A terceira edição será no dia 13 de maio no auditório do CAHL contando com as categorias de ficção, documentário e experimental.

terça-feira, maio 05, 2015

quarta-feira, abril 08, 2015


Fernando Coni Campos, em 1983, fez como magia que se multiplicassem os alimentos da feira cachoeirana.
O mágico Dom Velasquez e sua partner Paloma, ao se depararem com a escassez de alimentos que aquela população enfrentava, decidiram usar de seu ilusionismo para proporcionar alguns minutos de lúdica alegria àquele povo. Infelizmente, a magia não perdurou; a população frustrada se revoltara, e o delegado, que antes já havia imposto uma pré-censura ao show de Dom Velasquez para acontecer no Cinetheatro (sim, o de Cachoeira), o pusera atrás das grades.
Fernando Coni Campos é diretor baiano. O Mágico e o Delegado, seu último longa metragem, teve suas cenas gravadas nas ruas de Cachoeira em plena década de oitenta e também em Castro Alves, sua cidade natal. E é aqui, do recôncavo, que nós do Cineclube Mário Gusmão, convidamos você para a exibição do filme que encerra a mostra Fernando Coni Campos.
Quarta feira, 08/04, às 19hrs no auditório do CAHL. Entrada gratuita.

segunda-feira, março 23, 2015


Próxima quarta (25), o Cineclube Mário Gusmão exibe o filme Ladrões de Cinema, do cineasta baiano Fernando Coni Campos.
O longa lançado em 1977, trata-se de uma experiência metalinguística, expondo o cinema como uma atividade marginal, o cinema apresentando sobre fazer cinema. O diretor consegue expor à sua maneira e de forma cômica, um expressivo retrato de se fazer cinema no Brasil na época de sua realização.

sábado, março 07, 2015


Fernando Coni Campos procurava produzir um cinema de poesia e empatia, o que afastava suas obras do Cinema Novo. O diferencial do cineasta baiano é justamente abordar a fabulação, o sonho, construir uma dramática popular brasileira. Um cinema que na sua época vivia uma luta contra a censura policial, comercial e ideológica, na qual o cineasta prontamente delatou.

É com muito orgulho que o Cineclube dá início aos trabalhos com a Mostra Coni Campos, exibindo o filme “Viagem ao Fim do Mundo”. O longa se passa durante uma viagem de avião, onde cada personagem aparenta viver em seu próprio universo. Passageiros lêem jornais e revistas enquanto um rapaz lê Machado de Assis, detendo-se no capítulo “O delírio”, do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

AUDITÓRIO DO CAHL | 11/03 | 19H
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

terça-feira, janeiro 20, 2015

sábado, novembro 01, 2014




Ontem estive na cidade de Cachoeira, na FLICA, e fiquei maravilhado com o dramaturgo Matéi Visniec. A mesa 06 teve a temática Cortinas abertas: do palco aos livros, com o Matéi Visniec (Romênia) e Márcio Meirelles, com mediação do Djalma Thurler.

Veja aqui:http://www.flica.com.br/





terça-feira, setembro 30, 2014

quinta-feira, setembro 11, 2014

sexta-feira, abril 04, 2014

terça-feira, março 25, 2014


Foto: Dulce Sanches


As noites desabam insinuando assombros
Que gotejam em minhas imprecisas lembranças
Minha essência tem sido sempre este tumulto
Nuvens no céu obscuro não alcançam teus amores
Erramos infelizes pelas passagens clandestinas
Eu sou um homem que voa nos aguaceiros
Rezo para você um rosto que nunca é visto

Às vezes despejei lágrimas doídas em teu corpo
As tempestades arrebentam tuas flores mimosas
Aparições vazam diante de tua afeição fingida
Luares chamejam pelo negrume e esqueço teu cheiro
Beije meus olhos sem mágoas nos bosques
Eu sou um homem que voa nos aguaceiros
Rezo para você um rosto que nunca é visto

Nem sei até onde posso ver as sediciosas paragens
Sem coiotes que rodopiam ou cães ambíguos
Apenas abraçarei sozinho através das pradarias
Sem princípios e sem alguém para idolatrar
O mar jorra desenganos enquanto permaneço no quarto
Eu sou um homem que voa nos aguaceiros
Rezo para você um rosto que nunca é visto

Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, dezembro 27, 2013



Projeto.Z from Adriano Oliveira on Vimeo.

O "Projeto Z" é uma criação coletiva realizada no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). É um exercício prático de produção de efeitos especiais na forma de episódio piloto para a websérie "Z", cuja produção completa dependerá somente da repercussão deste primeiro ensaio.
A temática zumbi foi escolhida por permitir a mistura de técnicas práticas e digitais na produção de efeitos. Conseguimos associar, por exemplo, maquiagem tradicional com manipulação de imagem por computador para atingir um resultado que não deixa a desejar em nada a produções comerciais. Isso sem mencionar o criterioso trabalho de produção de efeitos sonoros e de trilha original.
O "Projeto.Z" é um exemplo da capacidade de realização dos alunos do curso de Cinema e Audiovisual da UFRB, potencializada pelas excepcionais condições oferecidas pelos equipamentos e laboratórios do nosso centro em Cachoeira-Bahia. Fora desse contexto privilegiado, seria impossível produzir este curta a custo quase zero.
Os 8 minutos deste episódio são o resultado de um semestre inteiro da disciplina Novas Tecnologias Aplicadas ao Cinema e ao Audiovisual, em 2013. São a decantação de mais de 30 horas de filmagens totalmente realizadas na cidade histórica de Cacheira, a 110 km de Salvador, no singular Recôncavo Baiano. Entre alunos, professores, técnicos e a participação especial da comunidade local, foram quase 100 pessoas envolvidas, compartilhando a alegria de fazer cinema.
Junte-se ao nosso projeto comentando, compartilhando e dando sugestões.
Queremos mais!
CRÉDITOS:
elenco por ordem de aparição:
Léo Conceição
Adriano Oliveira 
Aída Vitória
Ohana Almeida
Laís Lima
Tiago Araújo
Tau Tourinho
Gabriel Oliveira
roteiro e direção:
Adriano Oliveira
diretor assistente:
Emerson Santos
direção musical:
Guilherme Maia
música original:
Claudio Manoel Duarte
Guilherme Maia
guitarra:
Victor Jesus
montagem e pós-produção:
Adriano Oliveira
fotografia:
Cássius Borges
Maíra Conde
Guilherme Bronzatto
assistente de fotografia:
Léo Conceição
direção de arte:
Daniela Fernandes
pintura em acrílico sobre tela (abertura):
Nelson Magalhães
iluminação:
Maíra Conde
Italo Santos
som direto:
Mateus Ribeiro
Luís Otávio
direção de produção:
Clarissa Brandão
produção:
Ary Rosa
Daniela Fernandes
Mateus Ribeiro
assistente de produção:
Lucas Santana
produção de set:
Lucas Pereira
Vitor Alecrim
produção de atores:
Ary Rosa
conceito de maquiagem:
Fefa Yanevisk
maquiagem:
Fefa Yanevisk
Nelson Magalhães
assistente de maquiagem:
Thamires Santos
Ulisses Arthur
Tau Tourinho
efeitos visuais:
Raquel Souza
Jefferson Parreira
Italo Santos
still:
Larissa Andrade
Guilherme Bronzatto
registro de bastidores:
Karol Kanarol
Tau Tourinho

zumbis:
Ary Rosa
Cássio Duarte
Ellen Mascarenhas
Gabriela Palha
Glenda Nicácio 
Henrique Roza
Heraclides Correia
Italo Santos
Jairo Alves
João Bernardo 
Jorge Chuín
Lucas Pereira
Marcio Junqueira 
Mbéni Waré
Neza Moura
Paulo Ricardo Reis
Pedro Pimentel
Raí Gandra
Sergio Matos
Tiago Araújo
Wendell Coelho 
Wesley Pro

agradecimentos:
Fundação Hansen Bahia
Jomar Lima
Estúdio Espinheira
Lucas Santana
Tiago Araújo
Wesley Pro
Wendell Coelho
Ana Maria Brandão
Virgilio Santos
Thamires Vieira
Thaís Calixto
Samir Suzart
Ismael Dal Zot
Sergio Matos
Wesley Salviano
Seguranças da Fundação Hansen Bahia

segunda-feira, dezembro 02, 2013



Nelson Magalhães Filho: o Blake de Cruz das Almas
 Poemas selvagens: sem títulos, bulas ou domesticações. Como se, de repente, fossem as barbas do velho Whitman. Selvagens. Poemas que ecoam em outras (h)eras, outros vincos. Desdobram-se desordenados. Ou ordenam-se em camadas feito listras de felinos. E se você dormir, pimba! Eis que lhe tomam num trago. Então, desarme-se. O universo de Nelson é sem estrelas. Uma lua paira e ilumina os corpos sombrios, lânguidos e bêbados de quem satisfez o desejo. Fosse nos anos 80 e, bem ao estilo Caio F., um de seus autores prediletos, apelidariam-no dark. Ou, quem sabe, black(e). Não pelo lado escuro da Força, esclareça-se. Mais sinuosamente, eu diria. Nas sombras, escondem-se segredos, fachos de luz. O poeta tinge a palavra com sua visão/percepção de mundo. E tanto revela quanto nubla nosso olhar. É que traça linhas vindas do subconsciente. Ele, generoso, permite que a emoção suba e, tal qual um anjo, vagueie em seu voo torto, indeciso entre o céu e o inferno. Nelson é pintor, blogueiro (anjobaldio.blogspot.com) e poeta. Vem de Cruz das Almas para estabelecer sua mitologia romântica em versos brancos. É, de certo modo, nosso Blake baiano. E, se o bardo inglês fez de seu tigre a imagem de um Cristo revolto, a representação aqui será outra (“os tigres chegaram / os cascos descendo pelo peito”). Tigre, cachorro, cavalo e anjo são figuras poéticas que se metamorfoseiam constantemente para exprimir uma rebeldia nada redentora. Buscam, tal como na literatura de seu par, o instinto primário. Mas não acreditam na inocência. São céticos e conferem à Arte, por meio das inúmeras citações e intertextualidade, seu uivo de protesto. As referências são múltiplas. Sobretudo cinema, literatura, música e artes plásticas. Porém, atente, não quaisquer referências. Nelson gosta das mais baldias. Rebeldes, você me corrige. Então, junte-se Jim Jarmush com Morrisson, Radiohead com Blake, Wim Wenders com Jorge de Lima, Tom Waits com Dylan Thomas, Francis Bacon com Lou Reed, Piva com Basquiat, Nick Cave com Fassbinder... E perceba que nada é gratuito. Nem mesmo o amor. Em seu discurso de cachorro rabugento morto em noite chuvosa. Por que é isso que Nelson mais canta: o Amor. Ao redor, poucos lenitivos (“só o amor é mais amargo que seus olhos”). O perfume e o sexo embriagam. O cão não late mais, porém, seguindo a lição do mestre Leonard Cohen, permanece “deixando marcas de um amor sem cura”. O manto frio e negro nos encobre (“evoco as veias silentes / nesta noite em que encontro a morte”). O cachorro não dança (“sou de uma raça de cachorro ruim”). Está morto, mas cobra, aos notívagos, lágrimas doces. Um poema. Uma prece. Pois todos sabemos que mais dia menos dia os tigres chegarão. E não terá volta.
 Lima Trindade
Mestre em Literatura pela UFBA, escritor e editor da Verbo21
http://www.verbo21.com.br/v3/




Alguns poetas não necessitam de álibi. Ou de se desculpar por escolherem um caminho menos sacal, numa espécie de mea culpa sem jeito quando confrontados com o que por aí chamam de contemporaneidade. Existem poetas que nascem de uma estirpe rara. Dos que insistem em fazer sua literatura sem meneios de cabeça, sem vacilos, sem sentir medo da incompreensão — como se ser compreendido fosse simplesmente conceder, entregar os pontos. Nelson Magalhães Filho vem dessa linhagem. Nobre, irascível, nem um pouco acanhada.
Numa época em que ser poeta é em si um ato de liberdade e coragem, já que os leitores, o "mercado", os editores e talvez uma meia dúzia de colunistas de merda aparentemente concluíram que a poesia está agonizando — enquanto uma platéia de cegos e surdos pede mais barulho, concisão, novidades estilísticas para que ninguém, no fim das contas, entenda picas e permaneça a se enfadar das novidades por eles mesmos desejadas —, surgem novos escritores que pouco se lixam para tais previsões.  Nelson vem dessa linhagem rara. Ao lado de outros nomes poucos conhecidos do grande público, contemporâneos de Nelson, como Sandro Ornellas, Ediney Santana, Lupeu Lacerda e Kátia Borges, só para citar alguns que admiro.
Cachorro rabugento morto em noite chuvosa (Edições MAC, 2010, 69 páginas) em suas poucas páginas é um livro que mostra um tipo de poesia vigorosa e exuberante. Calcada na nobre tradição dos grandes autores que marcaram, com justiça e sinceridade, a escrita poética. Nomes que não se aquietaram na certeza das fórmulas prontas, dos salões literários, que muitas vezes pagaram um alto preço por conta de suas escolhas, mas que escreveram com absurda coragem e com domínio sobre essa coisa chamada vida e sensibilidade, além de dominar o que muitos por aí chamam de técnica — pois agora sei que a escrita não prescinde da técnica no fim das contas, ainda que o autor negue e que seja algo inconsciente; algo como um fio condutor que permeia a obra do artista, uma fórmula que não serve para repetir e cansar o leitor, mas como afirmação de um estilo, de uma busca.
Nelson não teme o exagero. E não o utiliza somente como recurso literário, mas sim como inspiração. Parece não se incomodar em usar o texto longo e palavras que estão em desuso não por falta de mérito, mas pela insistente novidade que um certo e exagerado minimalismo espalha e que surge com a desculpa de que temos pressa, de que tudo é fragmentário, de que textos longos e carregados de fúria não interessam mais — e tudo parece cair numa espécie de repetitivo haicai, num concretismo meia-boca, numa poesia temerosa que se disfarça de inteligente.
Quando Nelson, que além de escritor é artista plástico e produtor de vídeos que podem ser assistidos em seu blogue [ anjobaldio.blogspot.com ], escreve "...embriagado pelo natal com uma grinalda /  de folhas penduradas numa orelha. /  a estridência da música / de nick cave me consome / em saudades devastadoras. / Suscitar sonhos de nuvens luminosas-fragores, / pássaro-noturno transcender / drásticas marés..." ("Vou andar de bicicleta pela tarde", p. 34), não é com a mesma pegada de um poeta que admira o passado e nele se refugia como forma de não correr riscos. Ele dispensa o recurso dos que, mais uma vez por falta de coragem, buscam um tempo em que tudo parecia mais romântico, mais pungente e visceral. Apesar de dominar a escrita e o uso de palavras incomuns, o que Magalhães propõe é uma poesia que possua a mesma força dos malditos clássicos, mas que dialogue com o presente que também pode ser inspirador — na medida em que temos Nick Cave, Win Wenders, Radiohead, Jim Jarmush que, como bem frisa Lima Trindade no prefácio, pode muito bem dialogar com Rimbaud, Blake, Morrison e Dylan Thomas.     
"vivo pastando no mar negro como peixe-boi / estrela do mar negro percorro temporais selvagens / e cada vez mais me perco pela afável noite de ontem / o oco de mim vai vomitando / um sentimento nostálgico de perdas / espelhos de mortos com seus ossos de medo" (p. 16).
Nos seus poemas, vemos um autor que exige de si e do leitor muito mais que uma leitura distraída. Nelson Magalhães Filho, talvez por ser um artista com muitas possibilidades — o visual em seus textos deve ter alguma relação com seus quadros e com os vídeos —, brinda o leitor com um livro que parece pequeno. Mas que possui a força necessária para ser uma obra ímpar.
 junho, 2011
 Gustavo Rios é autor do livro de contos O amor é uma coisa feia (7Letras, 2007) e integra a antologia de contos Tempo Bom (Iluminuras, 2010).




Cachorro Rabugento Morto em Noite Chuvosa
Kátia Borges
PDF

Sáb, 30 de Abril de 2011 10:11
Tom Waits canta Downtown Train enquanto leio Nelson Magalhães Filho. A arquitetura de seus versos é a dos sonhos. Cada leitor lhes empresta sua lógica. Não há segurança, mesmo quando se parece pisar território firme. De repente, numa frase, prédios semânticos inteiros desabam, "neste tempo perdido no mar negro", e mitos podem sustentar com apenas um dedo gigantescas estruturas.
"Arrastados passos nesta rua oscilam/como uma flor que reluzente chove: a cidade incendiada". Neste cenário diverso, Salvador parece ainda mais antiga, velho fantasma, com suas ruas largas, concreto sobre a epiderme de província, horizonte que se abre para todo e nenhum lugar. Estamos, isto sim, ainda enclausurados, embora libertos. "Esta é a cidade-sombras/ tão nauseante quanto os ventos escuros".
Sim, a cidade-sombras, que se ergue feito onda, gigantesca em sua força. A capital, corpo em cujas artérias circula a matéria viva do poema que vai "pelos becos escuros da Gamboa/vadiando pelas ruas estreitas/esculpidas de perturbados da Gamboa". Há algo de pop, de mítico, de rito neste "Cachorro Rabugento Morto em Noite Chuvosa". Há algo irresistivelmente lírico neste reino, que é Cruz das Almas, Salvador, Dinamarca.
Sim, há algo de príncipe neste Blake, como o chama Lima Trindade. Há algo de black nestes versos brancos. Há algo de corajoso neste lirismo, que faz paisagens assomarem, assombrarem, desenharem-se, inusitado e claro e escuro, "dentes postos sobre a mesa como um escapulário". Há um sonho dentro do outro enquanto o bardo oscila entre o compromisso com o sentido e a desmedida. "passeiam cães devotos das hortênsias/navegação à volta de tua nudez desesperada".
Não é verso medido, imitação barata de Sosígenes, cromatismo fake, crítica sem autocrítica, lirismo sem caráter ou erudição de almanaque. Nelson é poesia que transborda, esparrama, selvagem, cães, tigres, dentes e garras no cotidiano. Mas confesso que não pensei em Blake quando li pela primeira vez os versos de Nelson Magalhães Filho. Pensei em Roberto Piva (morto em julho do no passado) e no impacto que o seu Piazzas teve sobre mim, com aquele fluxo poético surreal e beat, que parecia retalhar a cidade de São Paulo com sua navalha afiada, palavras.
Mas Nelson não é Piva, nem o imita, embora os mova a mesma noção de que vida e vocação são indissociáveis (o poeta paulistano dizia só acreditar em poeta experimental com vida experimental). Nelson tem suas próprias marcas bastante pessoais e originais e com elas traça um imaginário traço, laço, que envolve poesia, artes visuais e existência. Seus versos esnobam a ilusão maniqueísta e dão a cara a tapa. Seus poemas são como quadros, fragamentos de imagens incendiadas. Riffs de guitarra neste universo lírico de pianinho elétrico, programado eletronicamente graças às indicações lidas em algum manual. "Flores putas eclodem a concha do tempo áspero em que os peixes e os insetos exaurindo larvas, me beijavam até sugar-me o fogo de pedra".
Livrinho pequeno, pouco divulgado, quase artesanal, embora leve o selo da Edições MAC, editora do Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, de Feira de Santana, e distribua sua força entre versos com as iustrações de Devarnier Hembradoom. Nunca nos vimos pessoalmente, nunca nos falamos, nunca me deu livros ou CDs com poemas gravados, não o conheço, mas são tantos os pontos de identificação entre nós que o sinto bem próximo. Talvez ali, onde Lou Reed canta Walk On The Wild Side, ou onde Jim Morrison faz sua dança da chuva (tempestade, temporal, ritual) em Light My Fire.
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Kátia Borges é escritora e jornalista. Publicou três livros de poemas: De volta à caixa de abelhas (2002), Uma balada para Janis (2009) e Ticket Zen (2010).