Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Exposição contemplada no Edital Portas Abertas para Artes Visuais 2009




A atopia dos anjos baldios:
um olhar sobre as pinturas de Nelson Magalhães
por Alejandra Hernández Muñoz*

Para muitos, a prática da pintura como dinâmica muscular, espessura matérica e repertório introspectivo, parece algo anacrônico diante da contemporaneidade pós-mídiática. Não para Nelson Magalhães. Suas telas provocam reflexões sobre a unicidade e autonomia da obra de arte, sobre os alcances da pintura enquanto processo e resultado, sobre o confronto entre representação e revelação. No momento em que, por todos os lados, nossa percepção é bombardeada pelo imediatismo das imagens eletrônicas, nossas emoções são manipuladas pelos efeitos especiais e nossa capacidade crítica é anestesiada pelo acúmulo de informações, estamos diante de uma pintura pura, que resgata o significado do pintar como ato existencial.

A prática do artista de pintar várias telas em conjunto, de uma maneira sincrônica, pode ser compreendida como uma negação da pintura enquanto objeto autônomo, gerando “famílias” de trabalhos com perfis de cor, estrutura e textura cotejáveis. Mas, paradoxalmente, a especificidade quase performática de cada tela, resultado de um contexto mental e gestual irrepetível, marca um caráter único em cada trabalho. Estas obras são uma afirmação tácita da perenidade das práticas informalistas da pós-guerra e da vigência das premissas neo-expressionistas da transvanguarda. O gesto visceral das pinceladas de Nelson não é calculado ou precedido de qualquer estudo preliminar, mas, sim, controlado por emoções de um espírito muito distante do aprazível e do contemplativo. Uma verdadeira sismografia do soturno, do sinistro, do melancólico e, por vezes, do trágico, que se revela como antítese da impressão retiniana. Não é pintura de observação mas de introspecção. Não é uma produção ilusória premeditada, fake de imaginário fantástico destinado ao escapismo dessa nossa atualidade permeada de simulacros, mas uma arqueologia do surreal que visa a refletir sobre a essência de uma humanidade desencantada.

A espacialidade desta pintura não é um dado dimensional concreto e preconcebido. O entendimento comum do espaço pode ser reduzido a duas acepções: como algo físico, “grande vazio” ou receptáculo de objetos, idéias e acontecimentos; como relação de coisas e ações, inclusive da interpretação subjetiva da nossa consciência. O espaço das pinturas de Nelson vai ao encontro dessa segunda acepção: algo conseqüente do próprio fazer pictórico e dos elementos ou figuras que emergem nesse processo. Entretanto, uma leitura transversal do conjunto dessas pinturas permite a apreensão de algo maior, que transcende o âmbito de cada tela. Não se trata de um “fio condutor” ou de uma narrativa, porém, da constituição de uma realidade atópica. A palavra atopia designa algo extraordinário, estranho ou, até, absurdo, sem a negação do topos (lugar em grego) como a palavra utopia, forjada por Thomas Morus no início do século XVI, que significa “lugar inexistente” ou aquilo que “não se encontra em lugar nenhum”. Das pinturas de Nelson emerge um lugar. O conjunto das telas revelam essa atopia, falam de algo que, embora desafie nossa lógica, existe. Invertendo a idéia de representação, numa operação do avesso do olhar, na melhor tradição expressionista, o artista desencava desse lugar atópico uma fauna misteriosa de figuras que emergem do acúmulo de pinceladas e que não descrevem nenhuma realidade aparente. São anjos baldios, quase ubíquos, definidos pelas camadas de tinta e intangíveis além do suporte da tela.

Alejandra Hernández Muñoz, uruguaia, residente em Salvador desde 1992, é arquiteta, mestre em Desenho Urbano e doutoranda em Urbanismo pelo PPGAU/UFBA. Desde 2002, é Professora de História da Arte da EBA/UFBA; tem diversos trabalhos de história e crítica de arte e arquitetura; foi curadora das mostras Pasqualino Romano Magnavita - 1946-2006: 60 anos de desenho de cidades (Galeria Cañizares EBA/UFBA, abr.2006), Visões do Labirinto (Casarão da EBA/UFBA, nov.2007), EBA 130 anos - Núcleo EBA Em Processos (Galeria ICBA, mar.2008) e Saccharum BA (MAM-BA, jun.2009), todas realizadas em Salvador.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

ANJOS BALDIOS 2009. Mista s/tela, 150X100 cm

Sangue meu lobuno


que teu plúmbeo olhar permeia meu encantamento


que teu traje rutilante de pedrarias


ostenta uma natureza vesuviana,


e no ocaso do delíquio com meu sangue de lobo


lambo teu ardente aroma de tâmaras.


Lamaçal do faminto


instrumento triste de suplício como círios oriundos,


da bárbara lua esta jornada crua me acompanha.


soberba liturgia, embrião-animal no livor


com meu sangue de lobo.


Nelson Magalhães Filho

terça-feira, fevereiro 09, 2010


Local: Galeria do Conselho
Av. Sete de Setembro, 1330
Abertura: 04 de março às 19 h

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

QUADRAGÉSIMA PRIMEIRA LEVA



PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

VEJA AQUI:

http://www.diversos-afins.blogspot.com/