Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, agosto 02, 2006

PELA PRIMAVERA

Primavera de l985. Começo a escrever.
Faz de conta que sou poeta
"repelindo o absurdo cotidiano":
Eu sou a flor que sangra sobre as pedras
banhadas pelas águas
e pelas raízes da terra. Às 23h deitei-me estuprado
pelas luzes da rua que entravam pela janela do quarto.
Meus pés ficavam aquecidos pelo hálito
das lembranças.
Bia me dá tesão:
vou cobrir seus cabelos de rosas brancas.
(Pai foi trabalhar e mãe disse que
ano-que-vem teríamos um relógio novo
em cima do armário de vidro).
Mês passado fiquei deprimido. Era triste
ver Bia parada no meio do jardim
olhando os pardais nos oitis. O pior
daquela noite foi o vômito.
Sentia-me um Cortàzar expulsando coelhinhos da barriga.
Paródia da experiência!
Menstruação de Bia. Seu corpo era branco
passeando debaixo das árvores que racham passeios.
As casas com suas moscas. As aparências
o trânsito da terra...
Bia desapareceu domingo pela tarde.
Às 9h no telefone recitando-me
Whitman: "... um minuto e uma gota de mim
tranquilizam meu cérebro..."
Gostávamos de revelar segredos dos outros ou
as chuvaradas de setembro ou que Bia adorava
jogar verde ou o vento arrastando seus cabelos
junto com as folhas e as noites mal dormidas.
Pela manhã fiz a barba. Quantos dias
faltam para o carnaval?
A tarde salpicou meu tédio, amante Bia
suave Bia, te amo.

Nelson Magalhães filho

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