Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, setembro 28, 2006
























Wesley Barbosa Correia nasceu em Cruz das Almas, BA. Graduou-se em Letras na UEFS, realizando projetos nas áreas de Língua e Literatura e viajou muitos estados apresentando em Universidades sua pesquisa sobre Literatura e Gênero. Cursou o mestrado em Literatura e Diversidade Cultural onde defendeu dissertação sobre o poeta Ferreira Gullar.

ALTER FACE

para NMF

É tarde!
E, talvez, muito cedo
para os labirintos inócuos de Rimbaud:
a estranheza do mundo em um copo d'agua
É tarde, meu bem.
Nem o relógio se atreve dizer horas.
Paira, na sala de estar, o odor
salutar dos versos nocivos.
É tarde, querida.
Tão tarde a ponto dos sustos
e dos prazeres
ficarem de mal de mim.
É tarde, Gullar:
não há teorias
nem críticas
nem vanguardas.
O que há: é o poema a vomitar-se.
O poema que apenas Kafka conheceu.
É tarde. Muitíssimo tarde, amor!
Para provocar - sendo assim tão tarde -
a cama a caneca
de café a televisão
tiram a roupa
frente meus olhos
é tarde angústia é tarde alegria é tarde gastrite
dor de cabeça e mau funcionamento dos rins
é tarde, vida e sonho
é tarde, sono
mais seguro dormir e, quiçá, não será amanhã tão
tarde!
Quiçá, tudo
se recomporá
como
no primeiro início
do instante inabitado.

Wesley Barbosa Correia

2 comentários:

Anônimo disse...

Grande poema!
Grande homem!
Wesley é um mestre simplesmente brilhante.
Vale a pena conhecer um pouco mais dessa figura que sem qualquer sombra de dúvidas está tornando-se um grande ponto de referência para meus estudo.
Um grande abraço a você, professor.

Anônimo disse...

Sublime, espetacular!

Não me sinto digno o suficiente de ser aluno de tal ilustre mestre.