Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, maio 02, 2008

Nelson Magalhães Filho. Mista s/papel, 70X50 cm


estou ausente de você outra vez. pássaros agarrados
no luar de teus olhos ermos após
a chuva de avencas, lábios incendiados.
fudido à primeira vista deste luar respingado
pela janela do quarto imundo
subitamente acontece de: lábios incendiados
noites-gerânios desperdiçados.
lua cheia longas noites de embriagues
lua raivosa depois que você outra vez se foi agoniada
uma flor esfolada da mijada dos deuses
você foi embora ontem uma faísca
amarela nos seus olhos longe do tempo.
amanhã o sol negro levará à ruína
todos os invernos tardios,
enterrará as tardes-miragens
que vão se fuder antes que as cinzas
queimem as paredes de meu quarto imundo
pedaços de mim nos fins desta tarde.

Nelson Magalhães Filho

3 comentários:

SANDRO ORNELLAS disse...

Gosto das suas distorções poético-visuais. Tanto do poema quanto da foto acima.
Grande abraço, NMF.

SAMANTHA ABREU disse...

disposições perfeitas!
Tela linda demais!

Eliana Mara disse...

Texto e tela: surpresas e inquietação.

Beijos