Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, outubro 22, 2008

Nelson Magalhães Filho. ANJOS SOBRE O RECÔNCAVO 2008, acrílica s/tela, 80X70 cm

não sei se fui sempre corrompido
para ter afeição pelos teus olhos enluarados
pelos teus velhos poemas que falavam de felídeos
que se agasalhavam em flores noturnamente,
flores que eu sempre plasmava na esperança minguante
de ver um anjo triste me acenar com suas mãos pardas,
não sei se fui contagiado para caminhar
pelos ermos jardins
sob um canto lisonjeiro de pequenas aves astutas
que não dormitavam nem com o clamor
das estrelas pretas
perdidas entre nuvens sombrosas,
não sei do trem que corre à noite sempre te levando
para aquele tempo inculto em que eu nunca poderei estar...

Nelson Magalhães Filho


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9 comentários:

Zinaldo Velame disse...

Belo poema, Magalhães! Eu lí estas palavras ao som de Djavan cantando "Mãe" de Caetano e ao sabor de uma gelosa Antártica vinda do bar de Crispim. Abraço!

On disse...

teu blog tb é interessante! parabens!

Luciano Fraga disse...

Buenas, sinceramente: uma cobardia, um deleite, maravilha,de uma leveza extremamente profunda, diferente dos antigos, abração.

Aline Christall disse...

Eu não sei de NADA, só sei que adoro vir aqui...

Bernardo Guimarães disse...

Nelson:
às vezes seu blogue demora pra caralho para abrir e hj foi a caixa de comentários. E eu que adoro vir aqui e sentir o medo que suas poesias me provocam!

SAMANTHA ABREU disse...

Nelson,
li teu poema umas cinco vezes...
reli, pensei.

me causou alguns questionamentos. O que pra mim é primordial.
Senão esse, qual a função da arte, né mesmo?

:D

Beijos!

Ruela disse...

Boa Nelson,
responda ao meu e-mail...para poder continuar no Discharge 4.


Abraço.

anjobaldio disse...

A arte serve para questionar mesmo. Que bom!

Ricardo Thadeu disse...

di'arrombar o poema. fiquei lendo e olhando pra a imagem com o rabo do olho.

¡adiós!