Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, fevereiro 17, 2009

canção dos cães de luz

Nelson Magalhães Filho. ANJOS BALDIOS 2009, acrílico s/tela, 100X80 cm


Naquela tábua horizontalmente assentada
onde indivíduos maus incriminam-se ao partir do dia,
e tantas aspersões com gotas marejadas das lamúrias
em cada lugar ermo desta cidade indecorosa...
Num só instante daqueles olhos iluminados
pela lua arroxeada e estrelas vermelhas: fomos
todos nascidos do mesmo pai e da mesma mãe
entrelaçados pelas pontas dos cabelos
bruxuleados por um breve laço de amor: sim,
poesia para deliciar nossas almas de lírios selvagens
ó fragmento orgíaco da purificação, a brutalidade
irada dos viajantes sombrios
embriagou-me naquela mesa
sob estrelas vermelhas queimadas em minha mente.
Não foi necessário prolongar meus pés nus: ainda
não era o tempo das tormentas
pois a ansiedade dos lírios selvagens não são para sempre
e nosso amor será rasgado pelo veneno
e pelos cometas ó divina inspiração: êxtase
supremo da libertação a que nada
falta das forças de nosso inferno!
Os amigos não precisam ser lamparinas
para nos conduzir até o jardim.
E quando a madrugada foi violentada por minha euforia
acendi o sol negro, derrubei rezas mortíferas,
penetrei as mãos no fundo do coração
e arranquei por fim a beleza trágica
de beijar a inquietude de meu demônio.

Nelson Magalhães Filho, em As Luminárias, 1982

5 comentários:

Vitor Borges disse...

muito bom grande nelson.
grande abraço

lupeu lacerda disse...

tinha que ser um anjo baldio pra violentar a madrugada e acender um sol negro.
raça de cachorro ruim?
anjo e cachorro.
gosto pra caralho do jeito que tú escreve man.

um puta abraço.

Adriana disse...

Beleza de poema: intenso, viril, lírico, maldito. Amei. Merecem ressalva estes versos:"E quando a madrugada foi violentada por minha euforia
acendi o sol negro, derrubei rezas mortíferas,
penetrei as mãos no fundo do coração
e arranquei por fim a beleza trágica
de beijar a inquietude de meu demônio."
Sensacional.

Val disse...

Impressionante e tbm com um leve toque aterrorizante!!

Zinaldo Velame disse...

Muito bom, Nelson! Abraço.