Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, abril 24, 2009

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS BALDIOS 2009. Acrílica s/tela, 76X69 cm

mordo teus segredos meu amor, quem
é Beatrice? Quero ir além da Ravena maldita
para tratar dos buquês que foram levados pelos anjos
que se nutriam de sangue,
tragando as cenas secretas da cidade e entre banquetes sinistros.
nesta noite ouvia uma sonata para violino e piano de Bela Bartók
enquanto bem devagar uma incursão de gatos gemiam no breu.
sentia o faro da chuva preta,

drástica transição de insetos em peixes,
um perpétuo rastejar de lagartos
com suas línguas de fogo.
bolhas leves fazendo sombras pela névoa densa
ou mesmo neblinas de cogumelos-libélulas
violáceas amamentadas pelas flores-carmins
soprarm teus segredos no ar...

Nelson Magalhães Filho

7 comentários:

Zinaldo Velame disse...

Bela e misteriosa tela, Magalhães, e palavras que feito faca corta a carne da gente. Grande abraço!

Vitor Borges disse...

essa pintura parece que colocou junto o anjo baldio e o cachorro rabugento, foi a primeira coisa que veio na mente. muito bom grande nelson.

Renata Belmonte disse...

Pintura maravilhosa, forte, intensa! Ótimo poema tb!
Bjs

Nanda Assis disse...

é muito maneira e forte a sua forma de escrever. eu gosto.

bjosss...

On The Rocks disse...

a tela é do caralho.

o poema e seus mistérios seguem firme e denso...

abs

p.s: tô na cidade das sombras.

poetrilhas disse...

o espetáculo de sua prosa
sem a consciência de suas causas
metafísicas
que regem o ritmo e os fonemas
que produzem

espontâneo

tem para nós
uma força de tragédia maior
que a explosão da bomba de cobalto

embora
visivelmente
não o mesmo efeito

amavelmente,

Adriana Godoy disse...

Anjo baldio, que mistérios guarda? tela duca, poema duca...ou mesmo neblinas de cogumelos-libélulas....lindo. Beijo.