Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, setembro 06, 2011

O vídeo dolls angels foi selecionado para o Salão Regional de Artes Visuais de Porto Seguro, que acontece em 28 de outubro no Centro de Cultura de Porto Seguro - BA



Nesta série de vídeos que apresentei aos Salões Regionais de Artes Visuais, procurei fazer uma reflexão crítica sobre a violência, vida densa, morte, caos rural e urbano, pertencimento a um lugar, poesia e memórias da infância. Meu processo de trabalho é uma experimentação sempre em andamento. Com a crescente brutalidade desse lugar que não é destino, as pessoas são marginalizadas e estão extremamente sensíveis ao tempo que sempre parece se retrair: tudo parece escapar de nosso corpo e de nossa mente (desintegração psíquica). Elas carregam um sentimento estranho de deslocalização silenciosa e reminiscências lânguidas. Minha abordagem e preocupações temáticas vêm do assombro da overdose das drogas, das epidemias, das catástrofes, no desvanecimento deste nosso tempo que corrói nossa identidade em ruínas. Essas imagens são freqüentemente focadas em uma conexão física e espiritual com os resíduos humanos, um mundo cheio de enigmas e ásperas recordações.
Em dolls angels são questionadas as sutis relações entre a infância e a perversidade, numa série de imagens  apresentando um boneco sendo maltratado por um suposto afogamento, com a intenção de provocar um sofrimento ou um sorriso irônico no espectador. O boneco, que é um objeto de afeto e recordações, está submergido numa antiga lavanderia de quintal, simbolizando um oceano misterioso ou até mesmo um útero materno desconhecido. Seus olhos são estranhos, bolhas, pétalas diáfanas e arroxeadas cobrem parte de seu rosto.
Então acho importantíssimo no atual e conturbado mundo contemporâneo, fazer uma reflexão sobre a violência, sugerindo uma provocação ao recolocar um símbolo da infância num contexto marginal. 

Um comentário:

Luciano Fraga disse...

Buenas, qual a missão do artista ou da arte, senão criar um ambiente social, político e um contexto questionador e instigante que contribua basicamente para que as pessoas despertem a sensibilidade, mas acima de tudo abram os olhos e de forma clara percebam a barbarie, abraço.