Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, setembro 18, 2012

"Cadet Blues" de Nelson Magalhães Filho na Mostra Competitiva XV Festival Nacional 5 Minutos



Esta é sua primeira participação no Festival Nacional 5 Minutos? Se não, de quais você participou? 
Já participei diversas vezes desde 2004 na Mostra Vídeos Baianos Inscritos, Vídeos não Selecionados e do Panorama Nacional. Da Mostra Competitiva é a primeira vez. Tenho feito alguns vídeos experimentais e videoarte. E agora em “Cadet Blues” fiz praticamente tudo sozinho: roteiro, direção de arte, fotografia, trilha sonora, produção e direção. Editei tudo em meu notebook. Procuro fazer uma reflexão crítica sobre a violência, a vida densa, a morte, o caos rural e urbano, o pertencimento a um espaço, poesia e memórias da infância. Meu processo de trabalho é uma experimentação sempre em andamento. Espero que todos vejam o vídeo. Acredito que seja um filme que provoca sensações diversas no espectador. Com a crescente brutalidade desse lugar que não é destino, onde as pessoas são marginalizadas e estão extremamente sensíveis ao tempo que sempre parece se retrair, tudo parece escapar de nosso corpo e de nossa mente (desintegração psíquica). As pessoas carregam um sentimento estranho de não caber em parte alguma com suas reminiscências lânguidas.


Ideia foi:
Minha abordagem e preocupações temáticas vêm do assombro da overdose das drogas, das epidemias, das catástrofes, no desvanecimento deste nosso tempo que corrói nossa identidade em ruínas. Essas imagens são freqüentemente focadas em uma conexão física e espiritual com os resíduos humanos, um mundo cheio de enigmas e ásperas recordações. O filme acompanha uma mísera abstração, onde um homem torturado vagueia por passagens áridas sob um sol dilacerante, carregando em suas mãos rugosas um objeto de sua consternação, repleto de ternuras abafadas, enquanto um blues incisivo vai destroçando sua própria aparição. Como bem diz o artista visual chinês Yang Fudong (n.1971) “A violência e a morte são os lugares onde a vida começa”.


O Festival Nacional 5 Minutos e você...
Para mim, só a participação já é uma premiação. É uma honra estar no meio de vários artistas maravilhosos.
Quase não acreditei quando vi o resultado da seleção. Fiquei muito feliz em poder participar de um Festival Nacional tão importante quanto o 5 Minutos.


Festival Nacional 5 Minutos: conheça, participe, divulgue: curta!!

2 comentários:

Luciano Fraga disse...

Buenas, o Cadet, cria e deixa o impasse no ar, fé, crença, neurose, carma, um embrulho instigante sobre esse mundo medíocre e fora de ordem, Abraço.

Zinaldo Velame disse...

Parabéns, NMF! Mendonça arrasou, abraço!