Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, outubro 25, 2006

DA MORAL

O medo como didática
para que a ave tema o vôo,
mas vá tatear seu limite-
nuvem como o enjôo de
quem almeja alturas.
O medo como ginástica
e como toda, incômoda,
exigente em sua dor exata
não como o bisturi da plástica
que faz da ruga seu remendo.
O medo de quem não mata,
e mesmo minúsculo vai sendo.

João Filho


JOÃO FILHO é o poeta que vai se apresentar - ao lado da escritora ÁLLEX LEILLA - no Projeto Poesia na Boca da Noite, no dia 7 de novembro (terça-feira), às 20 horas, no Restaurante Grande Sertão, em Salvador. O evento vai contar com a participação especial do cantor e compositor André Telles.
O poeta e prosador João Filho nasceu em Bom Jesus da Lapa, em l975. Exerceu desde menino todo tipo de emprego para sustentar a paixão pela literatura. A estréia se deu com Encarniçado, publicado em 2004 pela Editora Baleia, onde ele mostra toda a sua capacidade de recriação estilística, reinventando frases e gírias. Conheça um pouco de sua produção visitando o blog hiperghetto.

2 comentários:

ishak disse...

fala, cara. vim por indicação do bortolotto. queria falar contigo. me manda um e-mail: cacoishak@gmail.com
abraço.

Luciano Fraga disse...

Buenas,NMF há alguns dias atrás ficamos um pouco indignados com certo episódio,lembra-se?parecia tempestade,não passou de uma gota atomizada.Prefiro as "tempestades verdes".Eis que surgem três cavaleiros,num sábado esverdeado,carregam as cópias editadas de Melodias de Agosto e assistem antes de todos nós.Acredito que foram eles que apresentaram suas telas,poesias e o blog ao grande Mário Bortoloto,que gostou tanto que o incluiu na lista de favoritos,junto com caras como Lobão e outras feras do sul do país.Fiquei muito regozijado,não surpreso,você merece.Serviu para confirmar mais uma vitória do artista e sua arte contra os brutos e sua mediocridade.Parabéns,sucesso.Grande abraço,Buenas,LF.