Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, outubro 19, 2006



















Hoje é aniversário de Patrícia Mendes, atriz e grande poeta.


VOCÊ É MINHA POETA QUE BEIJO ESTA NOITE
para Chérie

Você é minha poeta que beijo
esta noite crisálida
enquanto sustento com meus sentidos selvagens
a melancolia de caminhar docilmente
com a morte,
talvez enlouquecido
como um príncipe druída
com cabelos de verbena
que partiu muito cedo
amado pelas divindades.
Então, mande-me embora esta noite
antes da chuva
e nunca mais esquecerei teus olhos borboletas
amormaçando toda lua.

Nelson Magalhães Filho



porque não vivo
o tempo se repete
no tédio adocicado
desses mares
vício eterno
repetindo pelos ares
seus
azares

porque não vivo
em meu olhar poente
não existe lágrimas
nem dores
nem drama

um precípício de luares
e um rumor
de asas
caindo
pelos cantos

Patrícia Mendes

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