Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da Série LUARES SINISTROS - 2004. Mista s/ papel craft, 100X80 cm

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Nelson Magalhães Filho. AVÔ (da série ANJOS BALDIOS) - 2004, mista s/ papel craft, 100X80 cm

domingo, dezembro 24, 2006

AVÔ

Numa noite, assoviada poeira de estrelas
meu coração vazio insistia na rua.
Vovô naquela vez não escrevia poemas
mas vadiava todo prateado pelos becos
e arrancava luzes com as unhas inquietas
das verdes paredes descascadas pela lua
(a noite inteira chamando chamando).
Às vezes nos entreolhávamos numa esquina,
eu era príncipe-felino
ele tinha asas
que rasgavam o paletó mais negro
que a flor da morte.
Sacudia os ombros meio esquisito,
ainda não dorme, dizia-me
deixe-me levá-lo para casa
ainda é uma criança
é cedo para o delírio sutil.
Seus cabelos lambidos como os de Gullar
um sapato vermelho
vovô meio dada
pendurava um brinco discreto na orelha esquerda
e na outra um vagalume
costurado com uma linha mais fina
que o silêncio.
O caminho era prisioneiro dos meus dedos magros
(frestas cheias de calos e suor).
Uma agonia
um hálito embebido de coisas noturnas,
velórios
príncipe dos gatos bebendo nos bares.
Vovô sem barba, olhos pretamente abertos
nariz comprido.
Nossos corações vazios rolavam ladeiras
bebiam seixos no rio
(ontem não vi Bartira e o sapo ao luar).
Naquele tempo ao céu piscava devagarinho
nos velhos sobrados,
e capturávamos borboletas negras outras azuis
pelos postes altas horas
recitando Allen Ginsberg, Rita Lee
sem fadiga, sem dormir dias e dias,
não fazia tanto frio.
(Eu tinha mandado uma carta para Silvana).
Subíamos nos telhados
roubando o sonho que esqueciam pela manhã.
Quando chegasse em casa
ia ter legião estrangeira ou a hora da estrela,
cartilhas de comunismo...
Naquele tempo eu signo de cachorro
outra vez adormecer todo queimado.
Ontem amei Celuta, ai flor!
Cel tem cheiro de terra molhada
e assim caminha levada...
Baratas chovidas pelo chão, I. disse:
você tá sonso, meio crisântemo.
Chove pouquinho. Dragão, Bach,
tenho desenhado bastante.
Som de Caetano, muito (dentro do peito
azulado de araçás).
Canto sem parar.
Carinho de vampiro em I. Se eu te queimo...
Outro sonho: tava eu e...
uma pontada de noite ameaçou minha cara,
uma noite de van Gogh
carruagem espelhada cheia de folhas de mármore
como cisco avermelhado no olho
começava a chorar...
Vovô, e vovô sumia, e eu ficava triste
aguentando as rajadas cruas das lamparinas
amarelas, também dançarinas amarelas
batiam palmas de casa em casa
passeavam com argolas nos dentes, ossos doendo.
Com uma tesoura amolada no realejo
recortei um pouco daquela água
e banhei a tarântula
feito farinha num peixe teórico.
Vovô sozinho atravessava muros e jardins
muito leve flutuava perdido pela cidade
gritava meu nome, acorde, toque
curto-circuito nas redes tortas e eu chorava
chorava. Seus olhos ainda trincavam-se.

Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Da série ANJOS BALDIOS, 2004, mista s/papel craft, 100X80 cm

dores douradas sem perfume
a televisão ligada fora do ar
um livro antigo na cadeira.

vadiagem
cotidiano demolido
um gato entre o oco
e a imensidão.

petulantes acácias
torta de abacaxi semeada
tertúlias e esmeraldas
prometem essa dor.

insondável bardo
cáustico arremesso de bálsamos
contra o muro das eras
pilotando uma seta ingrata.

Nelson Magalhães Filho, de A Cara do Fogo

terça-feira, dezembro 19, 2006

Na última sexta-feira dia 15, o pequeno TEATRO DO PORÃO da Casa da Cultura Galeno d'Avelírio (Cruz das Almas, Ba) recebeu quase 50 pessoas na apresentação da COMPANHIA DOS ANJOS BALDIOS
ESPERE ATÉ A ÚLTIMA CHUVA ROER SEU CORAÇÃO
Sandro da Hora
Maria, Afro e Rosa
Sandro e Geyza

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Das Elegias: Celeste

De luz e silêncio
o campo que se procura,
com impureza de nuvem,
com o difícil de seiva
de que a matéria se unta.
O que percebido não
foi inventado, como brisa
na face, a mão meiga
do instante sem crueldade;
não é evasão, perceba:
é a gota do cântico
em um mar de cansaços.

João Filho


TRÊS MIL VEZES PUTA

Esgotaste ou minhas mãos inábeis ciscando em torno de? Por que se sonha com os esgarços do seu corpo? Por que em íntima superfície a esperança de resquícios seus? O amor é trambolho, sempre incômodo, ocupa o que não deve. Semana passada caminhaste em mim com seu passo surdo. Você é negativa, vem travestida em manhã nublada de infância e o que daí decorre.

Mas o que acontece é dor. Desimporta o que já exagerei em samba, tela ou lápis, por enquanto, meu trambolho, você se insinua no hálito de cigarro dum velho livresco e na menina espanhola louca que filhosdaputam olhos teus. Toda tarde chuvosa é covardia.

Aprender a perdê-la calado e daquilo tudo que não sei sobre você resplandeço. Apertadamente caminhaste em mim com seu passo surdo. Das cores, você é o branco odiado, claro, se for possível a esta altura alguma exasperação. Não quero teus detalhes e não te direi os meus. Por vaidade, digo que emagreço e tenho cachos longos, e você é este biombo de viés e descomunal erguido com a casa que, para tirá-lo, teria que arrebentar as portas. O que não quero.

Caminhaste em mim, é verdade, mas ultimamente tem sido a solidão mais crua, pois ignora se o fantasma responde; um exemplo? A inútil coragem de rasgar as longas cartas. A aceitação pura e simples da frase como exercício de pieguice. É que escrevo pra você, meu anjo.

Nunca disseste mas adianto – deve admitir pelo menos que a repetição doentia sobre o tema não é de todo má, tem lá suas piruetas. É o que tenho conseguido, meu biombo, neste mundo humano. É ridículo, admito, e o ganho é mínimo. Letrinhas sumirão. Já pensaste nos amantes ahistóricos? E nosso lampejo que não chega a rastro, dizem os simbólicos que é nesse trisco que os amantes se fiam. Pode ser.Você é funda e longe, verbo intemporal. Sou lento e assimétrico, ritmo-lógica fluida. E já me enfado.

O sol da segunda prático e cotidiano não te dissolveu. Neste dia talvez pra você Baco cobra seu óbolo.

Ela é São Paulo, esta massa tumultuada e sozinha apesar de inúmera. Você é o concreto que se ossifica. A rima ingênua e a frase feia.Se não pode ser vivido, por que nasceste? Passo a odiá-la e não sofisme a solidão-distância de Abelardo recapitulada por Rilke, pois, cadela minha, o século não permite tamanha resignação. A carne tem que cantar enquanto é nova, e danem-se as hipóteses contrárias.

Seus buracos, cadela minha, esmoreceram o quê? Nem que não sacie, o ainda desejado é a sova. É que o cheiro maltrata a memória, o volume do corpo sobre quando pacificados (?), porque juntos, se acontecem (o que a cada vez rareia) eles, os corpos, se bastam. Desistência e derrocada, a tal cadela liga bêbada e explode desesperação às três da madrugada, três mil vezes puta (no sangue o rastro de todas as fodedoras desde antes do mundo humano), de todas as buças é a vossa raça. No meu canto estava e vem envenenar-me?! No fundo, minha zanga não esconde seu gozo, porque é angústia viciante, doer dói, mas não renegamos mais uma dose, três mil vezes... A beleza da dor?

João Filho

sexta-feira, dezembro 15, 2006

HOJE às 19:30 horas em única apresentação
ESPERE ATÉ A ÚLTIMA CHUVA ROER SEU CORAÇÃO
De Nelson Magalhães Filho
Criação coletiva da COMPANHIA DOS ANJOS BALDIOS
TEATRO DO PORÃO
Cruz das Almas - BA
Entrada franca
Direção : Nelson Magalhães Filho
Colaboração: Ronaldo Braga
Realização: Fundação Cultural Galeno d'Avelírio

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Nelson Magalhães Filho. ANGELS OVER CITY BLUES, 1998. Mista s/ lona, 130X110 cm

(Hoje ouvindo Diamanda Galás)

Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.

Nelson Magalhães Filho

CINTILÂNCIAS ESCURAS

Uma poesia desnudando cintilâncias opacas,
nas falsas noites fervilhantes de brilhos escuros,
estupidamente rejeitando a paixão sem vergonha dos jardins do poeta.
Uma poesia despetalando zoófitos nas similitudes,
rasgando noites de recôncavo e
reencontrando as noites bêbadas nos absintos impositores e decididos.
Uma poesia-palavra sem semelhanças,
destronando e coroando significados e significantes nos vazios ocos,
morada e desprezo dos loucos primeiros.
Um poema sujo, desgrenhado,
despencando alturas em uma altivez capenga.
Uma poesia surda-assassina,
um sentimento-perigo,
traindo todos os fustes solitários e inútil,
Inútil traço latitudinário das emoções.
Sinais sem abrigo.
Uma poesia: perdição dos deuses envergonhados e das mulheres, embustecidas e coloridas nas vargens esquecidas das falsas noites cintilantes. Que grite.
Que faça.
São palavras indizíveis penetrando a carne insensata.
Um amor inadvertido e traidor.

Ronaldo Braga
A COMPANHIA DOS ANJOS BALDIOS apresenta
ESPERE ATÉ A ÚLTIMA CHUVA ROER SEU CORAÇÃO
De Nelson Magalhães Filho


Gabriel Marques
MENINOS SÃO DIFERENTES

Quando minha mãe
se encaminhava
naquela noite de primavera
para se encontrar
com o Pai
Fazia muito frio
naquele hospital
Entreguei-lhe um terço
benzido
de contas de cristal
Trôpego e atado
nada pude fazer
para deter aquela viagem
Minha mãe
se foi na mesma madrugada
e nem rezou mais...

Miguel Carneiro
Nesta sexta-feira dia 15 de dezembro às 19:30 horas
TEATRO DO PORÃO da Casa da Cultura Galeno d'Avelírio (Cruz das Almas - Ba)
ESPERE ATÉ A ÚLTIMA CHUVA ROER SEU CORAÇÃO
Entrada franca em única apresentação

Adalton de Souza


Adalton e Antônio Guerra



Afro Santana e Rosângela Barbosa
Afro Santana em: ESPERE ATÉ A ÚLTIMA CHUVA ROER SEU CORAÇÃO
Rosângela Barbosa



Rosa e Gabriel Marques
Sandro da Hora e Geyza Lopes

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da Série CHUPACABRAS, 2004-2006. Mista s/ papel, 70X50cm

quando me saquei te parindo mula dragão
porca, hein, eu te amo como os partos
prematuros dos insetos multiplicando-se
compulsoriamente cada
vez mais e mais em suicídios
herméticos tocando-nos tanto
de leve o rosto
e não sentindo tuas mãos lindas
eu dormente até às vísceras.
cor de revelação dos santos.
ou como beber vinhos
coalhados-insensatez
te amo vestida girassol
e duas chaves de marinheiro
penduradas no pescoço delicado
e dois enígmas
lidos nas cartas desta madrugada
dama dos visionários
recortada de um livro
de fumaça escoada, esverdeando-se.
abarcas,
tu: cavas minha mente
em retalhos
e os segredos deixei-os
nas gavetas vazias
querendo-se descobrir àquela fundura.

Nelson Magalhães Filho, de A Cara do Fogo

FLORBELAS: Lita Passos, Inaê Sodré, Jeane Sánchez, Rita Santana e Alda Valéria

No dia 8 de dezembro passado, data do nascimento e morte da poeta portuguesa FLORBELA ESPANCA (1894-1930), a Biblioteca Prometeu Intinerante promoveu na sede da Biblioteca Betty Coelho, uma leitura de poemas da homenageada, com a participação destas poetas e atrizes.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Fundação Cultural Galeno d'Avelírio apresenta:
ESPERE ATÉ A ÚLTIMA CHUVA ROER SEU CORAÇÃO
De Nelson Magalhães Filho
Criação coletiva da COMPANHIA DOS ANJOS BALDIOS
Dia 15 de dezembro (sexta-feira) às 19:30 horas
TEATRO DO PORÃO da Casa da Cultura Galeno d'Avelírio
Cruz das Almas - Ba
Entrada franca em única apresentação
Direção: Nelson Magalhães Filho
Colaboração: Ronaldo Braga

Adalton de Souza, Sandro da Hora, Gabriel Marques e Geyza Lopes
Gabriel e Afro Santana
Maria dos Santos, Gabriel e Rosângela Barbosa
Adalton, Sandro e Geyza
Rosângela e Antônio Guerra
Sandro, Gabriel, Geyza, Maria e Rosa
Adalton, Sandro, Gabriel e Geyza
Adalton, Sandro e Geyza

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da Série CONSPIRAÇÕES - 2004. Mista s/ papelão, 100X80cm


essa mesma noite
de chuva minha irmã de signo
presa num bizarro triângulo

diário utópico escrito
nas noites de lua
velásquez e a vênus
do espelho

e essa dor?
vago nessas ruas escuras
e mais uma vez
sinto renascer os pirilampos
daqueles tempos em que eu
nem existia.

Nelson Magalhães Filho, de A Cara do Fogo

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da Série CONSPIRAÇÕES - 2004. Mista s/ papelão, 100X80 cm

um tordo pousa.
corpo que se vai, deixando a cama vazia
beberei licores terríveis
urinando nas rosas
mascando folhas verdes: abordei o anjo,
mas ele só tinha brilho
de calamidade
constelações carrascas.
o tempo
das saudades já passou
labirintos acobreados
lâminas de isolamento
peito delicado sentindo morte
e centauros.
aquiete-se,
destruir a persistência
dos relógios
que afloram sem cessar.
inferno
prenhe de animáculos.

Nelson Magalhães filho, de A Cara do Fogo