Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sábado, março 22, 2008

CENTAURO DAS ÁGUAS
Eu mulher de olhar orquestral
Trago ancas de éguas valentes
Meu ventre nutre estranhos cavalos
Presos no meu cordão umbilical
Nas minhas ferraduras de cristal
Não cabem meus passos de distâncias
Meus cabelos têm o brilho
Da claridade da luz de lilith
Trago sorrisos flutuantes
Nas marés cheias do imprevisível
Eu mulher de olhar de fogo
Trago na língua incenso e lâmina
Cavalgo campina de vidro
Cavalgo sangue em campina
Eu mulher centauro das águas
Amamento noite alimento dia
Com o colostro de espinho
Que escorre da rosa do meu peito.

Lita Passos

5 comentários:

SAMANTHA ABREU disse...

lindíssimo poema!
Parabéns!

FINA FLOR disse...

arre égua!

boa semana, querido!

beijos

MM.

Jeniffer Santos disse...

uma poema forte...cheio de impacto...gostei xD

beijos!

Fulana Miranda disse...

Que Lita continue!!!
Como é belo o poema de Lita!

José Inácio Vieira de Melo disse...

O poema "Rosário de Lembranças" e esse Centauro feminino são os dois poemas de Lita Pássaro que mais me fazem voar, mas voar para dentro, para olhar no fundo do abismo - silenciosamente - e enfrentar o que vier. Esse Centauro de Lita é todo um enfrentamento, é uma burrachera daquelas... Ainda bem que tem água pelo meio, porque senão era bem capaz do leitor morrer afogado em tantas imagens fortes. Com seu "Centauro das águas" Lita Pássaro cumpre o vaticínio de Quintana e salva um afogado. Beijos muitos, minha irmã.
JIVM