Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, abril 23, 2008

Zé de Rocha. Modelo e Atriz.
1999, acrilic on canvas (100 X 120 cm)

falarei da ferocidade dos desejos violentos
das últimas horas, desmaiadas
que traziam fragâncias estranjas
do mar da pituba,
lembranças de teus olhos despovoados
verdes mentiras de teus lábios
embebidos de sutil encanto.
não há nuvens no céu
apenas a lua pálida cheia de silêncios,
mastiga a lua pessoas insanas
uivando para nada,
pois desperdiçei flores demais
em seus lábios de mentiras.
a música de nick cave tocando no micro system
o quarto com cortina de lagartos
rasgam o tempo das irascíveis cobiças.
a chuva brandamente voltava
e fico estonteado de chuva
que range na vidraça vermelha
amor à primeira tempestade incide
sobre minha pele queimada de sol
respinga desprezo pela comoção
destes amores subterrâneos.

Nelson Magalhães Filho

3 comentários:

Luciano Fraga disse...

Buenas,o retorno com toda ferocidade e abrandamento de uma chuva que comove amores subterrâneos,grandioso...

Ruela disse...

de volta em grande,
abraço Nelson.

Zinaldo Velame disse...

Magalhães e Zé de Rocha, parceria bala, sempre nos levando à reflexão. Abraço!