Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, agosto 04, 2009


BARROTERAPIA
Vamos nessa, meu irmão,
Entre e se transfigure
Aqui no Bar do Barrão.
Mas deixe na porta o status
Vaidades e preconceitos
Valores pequeno- burgueses
Pois cá nada conta não.
Mas se você estiver grilado
Pode entrar com seus problemas
Sejam eles de moral,
Dor de cotovelo, dinheiro,
Escrotice no trabalho
Ou angústia existencial
Garanto que em três minutos
Tudo se volatiliza
E você sai outro homem
Dessa terapia grupal.
Pode até entrar com o Marx
Marcuse, Gramsci ou Althusser
Que na evolução do papo
Seu intelecto polemiza
Se bom mesmo é Zico ou Pelé.
A dívida externa do País,
Os pacotes do Delfim,
Não esquenta com isso não
Pior está o Bahia
Esquece que o Maracajá
Ainda não arrumou a grana
Da nova contratação?
Mesmo em caso de doença
Tome a sua brahma tranqüilo
Pois Edinho e João da Farmácia
Não deixam de dar plantão.
Se você for cristão novo
Não espere muita atenção.
Mas não estranhe se o freguês
Transpuser, pra se servir,
A barreira do balcão
Pois Nelson está lá por dentro
E ninguém sabe do Barrão.
Talvez esteja de pileque
De camisa, peito aberto,
Chorando firme no prego,
Ouvindo o LP do Roberto.
Se o problema for dinheiro,
Tudo vai ficar joinha
Jaime Bahia está chegando
Faça logo a sua fezinha.
Os grupos se animaram,
Estão saindo as novidades,
Quem está dando, quem não presta,
Os cornélios da cidade,
Quem foi tirada de casa,
Quem está passando o calote,
Enfim tudo descortina
Até que o futebol retoma
A discussão de rotina.
Agora é a vez das piadas
A confusão é geral
Chega o Santo Bicudo
Toma sua oitava lapada
Com a cara mais natural.
Não preciso dizer mais nada
Está feita a terapia
Se você quiser viver
O sincretismo cultural
E fugir do dia a dia
Curtivida, curtisom e curtição,
Vamos logo, meu irmão,
Entre e se transfigure
Aqui no Bar do Barrão.


Cyro Mascarenhas Rodrigues
Fevereiro de 1980

VEJA MAIS AQUI:

http://recantodasletras.uol.com.br/indrisos/1534499





2 comentários:

On The Rocks disse...

pô, massa o poema do colega biriteiro.

nunca fui de beber no bar de barrão, mas curto o espírito do poema.

buenas!

p.s: quando você vier traga o livro do ian curtis.

Zinaldo Velame disse...

Grande Barrão! Tomei algumas neste bar ouvindo a música de RC e assistindo Jorge Cury jogar sinuca. Belas palavras de Cyro. Abraço!