Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, outubro 20, 2009

hoje é dia de tomar absinto

Jean-Nicholas Arthur Rimbaud nasce em 20 de outubro de 1854 em Charleville, nas Ardenas, no norte da França, perto da fronteira belga.

ADORMECIDO NO VALE

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

(Tradução: Ferreira Gullar)

6 comentários:

On The Rocks disse...

nelsinho,

merecida homenagem ao gênio diabólico.

buenas!

O BAR DO OSSIAN disse...

Também lhe fizemos homenagem n'O Bar e ao Bela Lugosi, no mesmo dia nascido.

Abraço!

Luciano Fraga disse...

Buenas, o que sempre digo de um gênio como ele é o seguinte:diante dos escritos de Rimbaud sinto-me um merda, insignificante, abraço.

O BAR DO OSSIAN disse...

Não é caso para isso, amigo Luciano... Rimbaud foi um génio absoluto, um deus pagão da poesia descido à terra. Não tem rival, como tal não nos diminui, competir com os deuses será sempre inglório... ;)

Abraço!

Mirdad disse...

Rimbaud é bom pro rim.

Luciano Fraga disse...

Buenas, amigos do Ossian,fiquei um pouco consolado e aceitei o argumento, grande abraço.