Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sábado, outubro 24, 2009

Nelson Magalhães Filho. Série MULHERES, 2006. Mista s/papel, 100X70 cm

tatuada negra rosa nas costas
quero minhas tardes passar cálidas com você
no espesso céu de vadias estrelas.
de todos eu estava isolado no escuro
enquanto pela boca expelia plantas.
e foram naqueles invernos treze luas!
silente rosa negra longe
da vertigem-oceano
como o vento, traiçoeira
que não cessa, celebrado pelas musas
não deixe-me assolado dormir.
vagos sinais me chamam de fogo
e das pedras que nos visitam
nas estranhas horas
pela supressão do medo das águas:
- cerro uma tristeza quase em soneira!

Nelson Magalhães Filho


3 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

lindo poema, tão lindo quanto os peitos desta mulher!
que peitos, meudeus, que peitinhos!

Luciano Fraga disse...

Buenas,o velho poeta de volta com um soco no ventre vazio, que desfecho, nada de soneira, abraço.

arturrios disse...

Muito bom pintura e poema! Queria conhecer mais dessa série. Valeu!