Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, outubro 30, 2009

série anjos baldios na galeria do conselho em 2010


A FUNCEB (Fundação Cultural do Estado da Bahia) divulgou resultado da seleção do Edital Nº 01/2009 - Portas Abertas para as Artes Visuais. Em virtude da suspensão do processo de seleção deste edital, em maio de 2009, os projetos selecionados serão realizados a partir de março de 2010. Foram recebidas 44 inscrições e selecionados ao total 13 projetos, sendo oito para galerias de Salvador, com 11 suplentes, e cinco para galerias de Centros de Cultura de Itabuna, Alagoinhas, Feira de Santana e Vitória da Conquista.
Nelson Magalhães Filho foi selecionado para expor sua série ANJOS BALDIOS na
Galeria do Conselho, em Salvador.

sábado, outubro 24, 2009

Fotografia: Nelson Magalhães Filho

não sei se fui sempre corrompido
para ter afeição pelos teus olhos enluarados
pelos teus velhos poemas que falavam de felídeos
que se agasalhavam em flores noturnamente,
flores que eu sempre plasmava na esperança minguante
de ver um anjo triste me acenar com suas mãos pardas,
não sei se fui contagiado para caminhar
pelos ermos jardins
sob um canto lisonjeiro de pequenas aves astutas
que não dormitavam nem com o clamor
das estrelas pretas
perdidas entre nuvens sombrosas,
não sei do trem que corre à noite sempre te levando
para aquele tempo inculto em que eu nunca poderei estar...

Nelson Magalhães Filho



Nelson Magalhães Filho. Série MULHERES, 2006. Mista s/papel, 100X70 cm

tatuada negra rosa nas costas
quero minhas tardes passar cálidas com você
no espesso céu de vadias estrelas.
de todos eu estava isolado no escuro
enquanto pela boca expelia plantas.
e foram naqueles invernos treze luas!
silente rosa negra longe
da vertigem-oceano
como o vento, traiçoeira
que não cessa, celebrado pelas musas
não deixe-me assolado dormir.
vagos sinais me chamam de fogo
e das pedras que nos visitam
nas estranhas horas
pela supressão do medo das águas:
- cerro uma tristeza quase em soneira!

Nelson Magalhães Filho


livro, disco e filme para este fim de semana







terça-feira, outubro 20, 2009

hoje é dia de tomar absinto

Jean-Nicholas Arthur Rimbaud nasce em 20 de outubro de 1854 em Charleville, nas Ardenas, no norte da França, perto da fronteira belga.

ADORMECIDO NO VALE

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

(Tradução: Ferreira Gullar)

domingo, outubro 18, 2009