Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, julho 14, 2009

Mírcia Verena

DECIFRA-ME


A Escola de Belas Artes da UFBA
convida para a exposição DECIFRA-ME de Mírcia Verena
Disciplina Prática Profissional
Professor Fernando Pinto
Orientador Nelson Magalhães Filho
ABERTURA: 14 de julho de 2009
Galeria Juarez Paraíso (Escola de Belas Artes)
Terça-Feira: 19h
Até 31 de julho








MÍRCIA VERENA (Salvador, 1982), concluinte da graduação em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da UFBA, já vem há 4 anos desenvolvendo uma poética que convive entre a presença e a ausência, transita entre o sagrado e o profano, apropriando-se de um mundo imaginário que compartilha com o espectador seus sonhos mais intrigantes e seus segredos já quase relíquias de saudades incuráveis. Assim, Mírcia se permite a um espontâneo e lúdico passeio ao jardim secreto de sua infância, através de cores intensas e traços em rasgos francos e sensuais.
DECIFRA-ME sugere uma profunda investigação acerca deste mosaico abstrato de colagens, onde a prisão e a beleza, que às vezes pode ser trágica, estão juntas, ao mesmo tempo em que um ligeiro e terno erotismo nos remetem à literatura de Anaïs Nin e aos poemas de Myriam Fraga: “E por saber que a morte/ É a última chave,/ Advinho-me nas vítimas/ Que estraçalho” (A Esfinge).
Mírcia, que trabalha ouvindo as canções de Nana Caymmi e Carla Bruni, diz que sua criação vem mais das formas sugeridas pelas colagens estudadas minuciosamente em papel, do que de uma temática determinada antecipadamente.
DECIFRA-ME é uma exposição belíssima, que transita com referência poética nos sortilégios dos ajuntamentos aleatórios, e comemora suas vivências pessoais numa condução encantadora através de um dédalo de formas fantasiosas. Imperdível!

Nelson Magalhães Filho

Um comentário:

Luciano Fraga disse...

Buenas, muito legal, adorei o estilo, abraço.