Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, julho 16, 2009

Nelson Magalhães Filho. ANJOS BALDIOS 2009. Acrílica s/tela, 80X70 cm


Fábulas de figueiras imoladas dentro da noite,
por acaso astúcias são imundícies?
Viva a prosódia abocanhada suscitando indagações.
A música vinha pela janela, parecia o
noturno
em fá sustenido
de Chopin nesta noite alheia
que peguei num livro do John Fante.
O quarto amanhecia como um perfume arrogante,
sei lá, mas era o alvorecer.
Às vezes Cândida gostava de reter a manhã
em suas mãos sempre cálidas: “você prefere tocá-la mais tarde?”
Ah, esses sinistros quintais, essas noites de pelúcia
(talvez saídas de alguma gravura gótica
ou de um cochilo do Albrech Dürer).
Tudo isso é Cândida, que sofre
de indisposições imaginárias. Navegávamos
nas porções de folhas arrancadas pelas influências
malévolas dos tempos recuados
e o céu desta cidade ameaçadora é como um besouro
perdido dentro do espelho notívago
(como dois grilos brigando cri cri cri) lagarta
de fogo na parede encarnada do quarto.
Decidimos no caminho ver tudo que fosse bizarro
e anotar no diário: sandália pelo avesso,
osso de jasmim, ouriço-do-mar, carretel com linha, etc.
Aí veio o mesmo ímpeto, uma maldade intensa
e celestial apossando-me e tecendo meus vasos sanguíneos
e bebendo mandrágoras, a visão...
não é muito provável que a lua embaciada
adormeça amanhã. Lá vem Fernando Pessoa
e Lupicínio: os camaleões são eternos
e inatingíveis. Um relógio ancorado
numa estrela em vaivém e o mundo é varrido
pelos anjos de mau agouro, tricotar
teus cabelos minha amante buliçosa borboleta
talhada no peito, bebo tanino, farejo
um segredo num deserto improvável a busca
do bálsamo, olor das vestes rasgadas
nestes apontamentos absurdos encurtando
minha expíação cortes profundos e estreitos,
nosso futuro atávico, talismã tatuado sempre na dor...

Nelson Magalhães Filho


6 comentários:

L. Rafael Nolli disse...

Nelson, poema arrebatador - rico em citações que abrem grandes janelas dentro do texto! As imagens, como sempre, uma dezena delas e todas assustadoramente perfeitas: tem um vermelho se repetindo aqui e ali que é de uma força estranha, quase incomoda. Sangue mesmo. Abraços.

Luciano Fraga disse...

Buenas, uma verdadeira bomba H, regada a Lupicínio,corroendo as vísceras do meu tempo diante de um "relógio ancorado",grandioso, abraço.

Zinaldo Velame disse...

Muito bom, Magalhães! Este poema foi arrancado do fundo e bota fundo nisso. Abraço!

bat_trash disse...

Tu escreves bem para c&*%$!
Beijo.

mircia verena disse...

MUITO BOM!
MEIO FRÁGIL, MEIO FEROZ!

mircia verena disse...

GOSTO MUITO DESSE TRABALHO!