Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, maio 17, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série BESTUNTO VADIO, 2007, mista s/papel, 20X20 cm.

2 comentários:

Lita Passos disse...

Angelicalmente horrorosa essa coisa expulsa do ventre das´oceânicas águas. Pinte floresssssssssssssss.Rsrsrsrs. Grata, beijos.Lita Pásaro

ronaldo braga disse...

nelson pode ser o pintor das artes desagradaveis, mas antes nelson é o pintor das coisas escuras, o artista das dores esquecidas, o maestro das musicas caladas e por outro lado o abrigo dos anjos bebados e por certo o artista da busca da verdade passageira e mais ainda é aquele que sabe dos descaminhos e faz desssas não estradas sua trilha transparente
em noite de desejos e prazer.
viva nelson, viva a arte de nelson.