Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, maio 16, 2007

POEMAS DE LITA PASSOS OLHAR I

Com olhar longo e face indiferente
Contemplo manhãs e horizontes
Pastagens, hei de pastar, com fome insana
O espaço verde ou redemoinho de furacão
A morte é vida na qual
Folhas secas, cigarras, frutos, amor é inicial

Lita Passos


LEMBRANÇA I

Pudera eu contar esta história...
Mas é tão longa... Tão infinita...
Vem das raízes, da primeira seiva da terra.
Face prateada pelos reflexos do sol...
Lua cheia em pele de mares...
Como a claridade da lua, ainda lembro
A beleza da imagem daquele corpo aceso.

Lita Passos

RADIOGRAFIA DO SENTIR

Sou a tocada pelo fogo tingido de mel
A tocada pela saudade que exala da flor

Sou a tocada pela beleza do cerne do amor
A tocada pela música que exala do homem

Sou a tocada pela fina simplicidade de amar
A tocada musa pelo amor eterno do menino

Sou a tocada pela lágrima que enche o pote
A tocada pela ausência que preenche o vazio

Sou a alma tocada pelo canto do pássaro
A tocada pela voz do sentimento das criaturas

Sou a tocada pelo olhar que abre portas
A tocada pelo fio d água que corre ao vento

Sou a tocada pelo silêncio que derrama palavra
A tocada pela estrela da poesia viva

Sou a tocada pela sede do novo que nasce do novo
A tocada pelo novo amanhecer

Sou a alma tocada pela voz do vento, pela densa nuvem,
pelo prateado da lua, pelo calor da terra, pelo farol do sol.

Lita Passos

Lita Passos, natural de Cruz das Almas - BA é poeta e atriz. Participou de várias peças teatrais e recitais poéticos sob direção de Filinto Coelho, Renan Ribeiro e Nelson Magalhães Filho. Publicou em 1994 o livro "Flores de Fogo", e diversas antologias. Tem poemas no jornal A Tarde e nas revistas Exu, CEPA, Reflexos, etc.


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