Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, julho 03, 2007

Nelson Magalhães Filho. Página do DIÁRIO DO ARTISTA, mista s/papel, 15X21 cm

as franjas serpenteadas de meus cabelos,
meu rosto-caos
vou andando pelo avesso vagueando nesta agonia
com uma excessiva afeição pelo luzimento
de luas que gozam.
não amo ninguém, insidiosa minha inocência cheia
de flor e perversidade,
mas são bobagens.
é assim que a cidade fica de noite
inventando de veludo seus anjos sinistros
amantes-assassinos gelados.
estonteado pela náusea de vidro
brotada de minha garganta
essas ruas jamais serão varadas por minhas lágrimas.
não estou sendo romântico, você não é meu amor
não me deixa tatuagens perdidas pelo corpo
e cada beijo fere ainda mais meu abismo.
embarco essa grávida noite ejaculando monstros
pelos passeios
e quando tudo isso acabar talvez esteja acossado
por estrelas do mar
e invólucros de valium-10 no bolso da camisa.
só o frenesi de passar nesta pele
um aceso isqueiro de demência,
não rasgarei minhas dores, outra vez
restos de cães encarcerados embaixo dos carros.

Nelson Magalhães Filho

2 comentários:

Ruela disse...

Muito bom.

luciano fraga disse...

Buenas,este arranha o coração de forma tão áspera quantouma lixa... Magnífico.