Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

domingo, novembro 19, 2006

Henrique Andrade/divulgação

URDIDURA

Urdidura de teus dedos,
Venho-me construindo corpo de mulher ciosa.
Ciente, orgulhosa de gulas esporádicas sobre o teso tecido.
Varridão embrutecida de bicho,
Mansidão de pergaminhos molhados,
Malha amanhecida quente, arrebatada.
Manias de deslindar melindres de menarcas eternas.

Assim, varão dos meus firmamentos, venho tentando
Existir, apesar dos teus sinais de macho.
Conservo ervas entre os dentes, para escapar dos venenos
Da tua língua, quando molhas minha boca de beijos.

Rita Santana

2 comentários:

Anônimo disse...

lindo poema, me senti suave lendo,e beijo são sempre venenos: pro bem e pro mal.muito delicioso ler mulher que reflete a condição mulher - humana.é isso seu poema expulsa daqui a mediocridade.
ronaldo braga

Anônimo disse...

lindo poema, me senti suave lendo,e beijos são sempre venenos: pro bem e pro mal.muito delicioso ler mulher que reflete a condição mulher - humana.é isso seu poema expulsa daqui a mediocridade.
ronaldo braga