Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, novembro 29, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da Série CONSPIRAÇÕES - 2004. Mista s/ papelão, 100X80 cm


cão e sujo
fervilha pelas ruas,
hálito acre
ao lado dos vermes.

furtiva sua beleza
no sorvedouro
consumindo-se
e passa portal de fogo
sopra a esmo
escárnio de pélago
finca escamas nas estrelas.

noite após noite
seu brilho estúpido
ainda atormenta
clivagem traiçoeira,
astúcia mortal.

Nelson Magalhães filho, de A Cara do Fogo

terça-feira, novembro 28, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da série ANJOS BALDIOS - 2004. Mista s/ papel craft, 120X105 cm

agora a lua parece o olho do anjo.

escrever cartas de amor insano
cravar-me tatuagem de uma lembrança,
um jarro partido.

mordem espinhos a abóbada carpideira
pássaros selvagens mortos no pomar
pássaros angélicos comendo os lobos.

estrelas.
pássaros vermelhos iluminados
no candeeiro.

jorram lágrimas de agora: cinzel
seu corpo no santuário uma lua
o olho do anjo.

Nelson Magalhães Filho, de A Cara do Fogo




quinta-feira, novembro 23, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da série MULHERES - 2004. Mista s/ papel, 70X50 cm


TEIAS

As lentilhas despedaçam
o rumor dos ciclones
e um funil de algarve
nem sequer colheu almíscar.
As narinas aspiram
até desfalecer em ânsias
a bebida escondida.
Não há tempo que impeça essa dor
de amalgamar as vísceras
onde te guardo como pedras de estanho
onde me queimas e me roubas
o sabor do ácido
a lacerar-me a língua.
Mas onde me esconder
se meu prazer é que
me faças teias?

Gláucia Guerra



terça-feira, novembro 21, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da série CONSPIRAÇÕES, 2004. Mista s/papelão, 100X80 cm




Invernia nas pastagens.
Corria como as águas
desaguando no mar
em grande intensidade.
As ruas despovoadas
e escuras.
A noite expira sua compaixão,
diante dos cães rudes,
os dias tem sido embriagados
das impurezas da lua
e minhas veias caminham
no lodo noturno deste inverno.
Eu sei que a morte
se aproxima entre flores vindouras
nos dentes do minotauro.

Nelson Magalhães Filho

domingo, novembro 19, 2006

Lançamento do livro ESBOÇOS (desenhos) de Gabriel Ferreira.
Dia 23 de novembro
Museu de Arte Contemporânea (MAC) - Feira de Santana, Ba.
20 horas
Henrique Andrade/divulgação

URDIDURA

Urdidura de teus dedos,
Venho-me construindo corpo de mulher ciosa.
Ciente, orgulhosa de gulas esporádicas sobre o teso tecido.
Varridão embrutecida de bicho,
Mansidão de pergaminhos molhados,
Malha amanhecida quente, arrebatada.
Manias de deslindar melindres de menarcas eternas.

Assim, varão dos meus firmamentos, venho tentando
Existir, apesar dos teus sinais de macho.
Conservo ervas entre os dentes, para escapar dos venenos
Da tua língua, quando molhas minha boca de beijos.

Rita Santana

sexta-feira, novembro 17, 2006

Foto: Márcio Lima


um cavalo-bailarino desencravado da terra.
saga dos grifos
a cara do fogo.

faço garranchos coloridos.
as banshees.

desapercebido na fluência
das rezas
o galo celestial sobrevoa estradas que nos levam
à porta secreta dos elfos.

desembarquei numa terra desconhecida
enquanto gritavas com um cesto de rêmoras nas mãos:

bruxo é
cavalo santo,
cálido.

Nelson Magalhães Filho

Foto: Márcio Lima

PASSARELAS FINAS
Para Renatinho Passos

No terreiro do Campo Limpo
Um vento de mel
Açoita flores

O velho tamarineiro
Imponente
Atiça folhas

No terreiro:
Forrado de folhas secas
Abelhas, beija-flores, lavadeiras
Investigam meu olhar de fada

No horizonte:
O verde e o azul matizam
O branco do pensamento
Instigam um doce sentimento

Um ponto de luz fustiga:
Nova prosa, nova promessa
Pracatá, pracatá, pracatá
Escuto presença - estrela?

Na antiga casa, única cena:
Memória.
Cheiro antigo paira.

Debruço nesta janela:
Histórias, livros, músicas
Chão, paredes, portas, janelas
Jacarandás, móveis, louças
Gestos, sabores, espelhos

Eis-me:
Vestida de finas lembranças.
Princípio, infinito.

Lita Passos

quinta-feira, novembro 16, 2006

Nelson Magalhães Filho. Da Série ANJOS BALDIOS, 2004, mista s/ papel craft, 120X105 cm




É só mais uma noite.
Entre espasmos lastimosos
esvaecem resíduos de tédio.
Não há mais liames
entre coisas submersas apenas sobras,
memórias e perdas.
Estamos longe,
ainda solto pedaços de nervos
gelados pelas estradas.

Nelson Magalhães Filho











NMF, Luciano Fraga e Ronaldo Braga num caloroso debate com os espectadores do vídeo MELODIAS DE AGOSTO. No Cineclube do Ponto de Cultura Terreiro Cultural na última terça-feira em Cachoeira - Ba. Depois do evento promovido por Carine, Lú e Fábio, fomos jantar com o pessoal da produção do filme do Fernando Bélens PAU BRASIL, e uma equipe de reportagem do programa Soterópolis da TVE-Ba. Noite maravilhosa.

terça-feira, novembro 14, 2006

HOJE
Hoje - Terça-feira ( dia 14), às 19 horas
Reapresentação do Vídeo-experimental de Nelson Magalhães Filho:
MELODIAS DE AGOSTO. Baseado no conto de Pablo Sales. Produção: Luciano Fraga
Com Ronaldo Braga
PONTO DE CULTURA TERREIRO CULTURAL
Cachoeira - BA


sexta-feira, novembro 10, 2006

MELODIAS DE AGOSTO. O novo vídeo-experimental de Nelson Magalhães Filho
Hoje (sexta-feira) às 22 horas
Casa da Cultura Galeno d'Avelírio - Cruz das Almas, BA
Entrada franca

quinta-feira, novembro 09, 2006

O Centro Cultural Dannemann tem a satisfação de convidar para a solenidade de Abertura da VIII Bienal do Recôncavo, a ser realizada às 20:30 horas do dia 11 de novembro de 2006.
Dentro da programação da VIII Bienal do Recôncavo no Centro Cultural Dannemann (São Félix, BA), o filme ALICE, de Nelson Magalhães Filho, será exibido dia 18 de novembro (sábad0) às 21:30 horas, na MOSTRA PARALELA DE VÍDEOS. Numa noite avermelhada por estranhas paixões, um homem transtornado liga para Alice de um telefone público dizendo que está sendo perseguido por pessoas bizarras, enquanto ele se dirige para o mar. Com Pablo Sales. Duração: 13 min.
Foto: Márcio Lima

ESTRELA PEREGRINA

Estou na vida. Sei-me
Memória gira pensamentos
Memória gira lembranças.

Estou vestida de mim. Presente.
Sombra reflete andanças, imagens
Sombra reflete em espelho nu.

Estou invisível. Acorda o sonho.
Incauta ultrapasso os sentidos
Incauta ultrapasso os abismos.

Estou na vida. Sei-me
Inexorável embaralho estrelas
Inexorável leio estrelas.

Estou na vida. Atemporal
O destino ressuscita suspiros
O destino ressuscita correnteza.

Estou em romaria. Perenal
Sob a pele de chuva do meu amor
Sob a pele de estrela peregrina.

Lita Passos
Nelson Magalhães Filho. PAISAGENS QUE AS CRIANÇAS URBANAS COMERAM, 1995, mista s/tela, 185X145 cm

Veja se atravessa dentro de mim, são anos de beber folhas de nínfeas eu todo vestido de máquina das odisséias amargas tingido de ilusão, atirando casca de laranja na chuva das urânias, como a DAMA LUA de Pollock, dizendo numa carta que ser poeta é levar o abismo na alma. Por uma estranha certeza eu acreditava que as ruas afundaram. Se fuderam como se nunca, atrás de nós, irrespondíveis os quartos à luz de garotos podres & das reproduções de Bosch. Sangro ao sax do Erik Satie & o que está incrustado em mim é a fundura de um vendaval proibido. Ainda gosto de brincar com aquele gato de olhar corrosivo dos aguaceiros vomitando as paisagens que as crianças urbanas comeram com os insetos& as divindades, gravando na memória dos becos & nos asfaltos os sonhos dos meninos, indizíveis. E o sorriso alguns anos escuros na crueldade... alguém me dizendo não aos seus medos (mussitação que saía de seus lábios grossos) alguém rasgando a sua pele despindo-se com desenvoltura alguém me acariciando o peito deixando fluir seu brilho desesperado alguém me dizendo que já não acha loucura tragar estrelas como cigarros de haxixe quando as cores de todos os seus olhos saravam minhas feridas.

Nelson Magalhães Filho

terça-feira, novembro 07, 2006

Ainda é agosto e Paulo está trancado num apartamento sujo da periferia de Salvador, fumando e consumindo tranquilizantes para preencher o vazio deixado por Deyse. A Companhia dos Anjos Baldios apresenta Ronaldo Braga em: MELODIAS DE AGOSTO. O novo vídeo-experimental de Nelson Magalhães Filho, baseado no conto de Pablo Sales.
Sexta-feira dia 10
Às 22 horas
Duração: 20 min.
Casa da Cultura Galeno d'Avelírio, Rua XV de Novembro, Cruz das Almas, BA.
Entrada franca

sexta-feira, novembro 03, 2006

Minha amiga Lita Passos e Marcos Fontes na última temporada de ACORDA, AMOR! Grande sucesso no Teatro Molière da Aliança Francesa, foi livremente inspirada na Comédia da Vida Privada de Luis Fernando Veríssimo, e teve a competente direção de Andrea Elia.

Nelson Magalhães Filho. Da série NOITES FELINAS, 1999, mista s/ tela, 135X105 cm.


NOITES DE RECÔNCAVO

Recuso-me degustar
malícias atarracadas
derramadas sobre os pratos
intumescidas, emboloradas
como ração para os ratos
que parasitam estercos
no sacerdócio doentio
dos sugadores anônimos.
As portas de entrada das fachadas
estão lacradas
ruindo
com as falácias entupidas
dos meus ventrículos.
Ao bel prazer
prossigo cauteloso
como o cansaço de um monge
abismado
que suporta sem alarde
o desabrochar dos disfarces
forjados
nos tempos de apuros
quando revelavam-se os desígnios
grosseiros da blasfêmia.
Dissimulo crimes
quando brincava com o fogo.
Algo acidental
vegeta meu coração.
Menosprezo meus infortúnios
caminho pelas bordas
esquivando-me das descargas
negativas
que anseiam fazer poleiros
nos troncos de minha alma...

Luciano Fraga
Nelson Magalhães Filho. A MORTE DIANTE DA LUA, 1997, mista s/ tela, 100X100 cm.


Despetalado o silêncio
rara faz-se a rosa
feito incenso um anjo
rompe todo desejo

despetalado o desejo
rompe o silêncio
raro um anjo
feito a rosa

faz-se a rosa
desejo

despetalado um anjo
feito todo silêncio
rompe em raro incenso

Zeca de Magalhães, em A Oeste do meu coração
Nelson Magalhães Filho. Da série MULHERES, 2004-2005, mista s/ papel, 70X50 cm.


O MORMAÇO DOS SEGREDOS

Teus seios noturnos
são lamparinas negras
queimando meu cansaço.
Ressuscito quando te toco
e sinto o mormaço
do teu último segredo.
Hospedo-me no teu mito
e o meu coração
assina o enredo.

Luciano Passos

Como dizia Fernando Pessoa, "morre jovem o que os deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares..."

Ontem, tarde da noite, ouvia a voz sombria de Nico em "The marble index-69" e "Drama of Exile-81", e pensei no meu amigo Luciano Passos, que foi embora muito cedo levado pelo amor cruel dos anjos.