Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, junho 04, 2007

EFRAIM ALMEIDA

A exposição de EFRAIN ALMEIDA conta com cerca de 15 obras realizadas entre 1995 e 2005, selecionadas em função da referência que fazem – às vezes clara, outras vezes apenas sugerida – à imagem das chagas. A seleção se constitui de pequenas aquarelas e esculturas em madeira, quase sempre de corpos despidos ou de seus fragmentos. Embora representem um percurso temporal ao longo de sua produção, as obras não pretendem constituir uma antologia nem se ater a uma cronologia, mas destacam uma questão que as sintetiza. Assemelhados, por vezes, aos ex-votos encontráveis nas igrejas católicas, os trabalhos de Efrain Almeida não representam, contudo, a dor da carne. Elas parecem entregar sempre algo de si em oferenda, assumindo um tom sedutor e confessional que confunde erotismo e religiosidade e que evoca – aproximando heresia e contrição – a relação conflituosa entre a disponibilidade sobre o próprio corpo e as interdições morais a que é submetido.

Curadoria de Moacir dos Anjos.
Abertura dia 02 de junho, sábado, das 11 às 14h.

Em cartaz até 12 de agosto de 2007.
Estação Pinacoteca
Largo General Osório, 66 – fone 11 3337 0185
Aberta de terça a domingo, das 10 às 18h.R$ 4,00 e R$ 2,00 (meia). Grátis aos sábados


PAULO NENFLÍDIO A Gentil Carioca - até 14 de julho


CAETANO DE ALMEIDA
Galeria Anna Maria Niemeyer - até 30 de julho

http://www.cubobranco.com.br

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