Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, dezembro 03, 2007

EFRAIM MEDINA REYES

SONHEI QUE TRANSAVA COM A SYLVIA PLATH

Arranha-céus que caminham pela superfície da água como profetas tardios. Homenzinhos cheios de comprimidos que caem das altas janelas dos seus sonhos até os bueiros e ralos do homem branco. Vampiros que chupam ânsia nas privadas públicas. Escolares assassinos e todas as coisas que nunca aparecem nos postais.
No meio do trânsito sou alguém que aprendeu a voar, poderia assombrar magos e xamãs. Prefiro mergulhar no bosque da noite, saltar ao céu, com todos esses truques que jamais usei.


Efraim Medina Reyes

http://www.pistolerosputasydementes.blogspot.com/

Do livro de poemas Pistoleiros/Putas e Dementes,2006, Ed. Garamond, RJ,
Tradução de Maria Alzira Brum Lemos:
http://www.laoutra.blogspot.com/



FÁBIO MAGALHÃES



LINHAGENS DO ACASO
Galeria da Aliança Francesa
Vernissage 13 de dezembro (quinta-feira) às 19:30 h
14 de dezembro de 2006 - 04 de janeiro de 2008

6 comentários:

SAMANTHA ABREU disse...

puxa.. adorei o texto dele...
não conhecia. Fantástico!


Nelson,
olha...
tem novidade hoje, no FALÓPIO...
http://versosdefalopio.blogspot.com/
apareça!
Um beijO!

Kátia Borges disse...

Muito bom o Efraim, Nelson. Fui lá no blog dele e fiquei pirada, pirada. Valeu pela dica aqui no Anjo e beijos.

L. Rafael Nolli disse...

Olá, Nelson! Taí um autor que eu não conhecia. Uma boa pedida. Poesia forte, dotada de imagens impactantes. Vou visitar!

Flecha Verde disse...

Nelson, gracias de corazón por su amistad. Espero conocerlo en mi próximo viaje a Brasil. Un abrazo fuerte

Luciano Fraga disse...

Buenas,valeu a presença forte,marcante e escrota do grande Medina(não o outro).

anjobaldio disse...

Efraim, eu é que agradeço tua visita no meu blog. E teus livros são maravilhosos. Um forte abraço,
Nelson.