Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, dezembro 18, 2007

Nelson Magalhães Filho. Morte pelo Sonho 2, 1991, mista s/madeira, 117X78 cm

arrancado
com as unhas do telhado,
o creme de mamão
que Rebeca morria
a cada noite,
como uma mariposa negra.

Nelson Magalhães Filho

4 comentários:

A estranha disse...

Gosta da tua poesia.... Mariposa Negra...


***

Gabriele Fidalgo disse...

Esse seu blog é tão bom, que fica até difícil comentar.
Sempre venho e gosto muito da sua poesia.

Beijos.

La Outra disse...

Mariposas negras, borboletas melancólicas, mas sempre com muito humor (isso conta). Bjs, até já, MA

SANDRO ORNELLAS disse...

Gostei da pintura, dos rostos de sorrisos dementes.