Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série 2004-2006, mista s/papel, 70X50 cm

Os tigres chegaram.
Sonhos cobrem tua vasta cabeleira
ornada de cambraias
dilacero pétalas nos tigres
lágrimas as mais tristes sobre a face.
De pranto alucinado pelo vento
arrufo-me de encontro ao morno
alagamento da vertigem.
Urgiam cachorros selvagens
pelos eucaliptos
avançavam as águas ardentes
em minha direção.
Contra as ondas escuras singraremos,
os tigres chegaram
os cacos das unhas descendo pelo peito.

Nelson Magalhães Filho

Um comentário:

Adriano Caroso disse...

A sonoridade das palavras neste poema é um deleite. Demais!