Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, julho 14, 2008

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS SOBRE O RECÔNCAVO 2008. Acrílica s/tela, 100X90 cm

Vamos continuar a tecedura, meu amor
vomitando sangue todas as manhãs
embora as noites carnívoras

pereçam sempre graves
nos cruciais arroubamentos

das gralhas de azeviche
consumindo nossa quietude sem cessar
entorpecendo de esquivas lembranças
o logro do resplendor

dos santos dilacerados.
Cheio de sândalo,

nosso amor predador sorvendo
uma maré vermelha escarlate.

Nelson Magalhães Filho

2 comentários:

On The Rocks disse...

buenas nmf, tô curtindo esta série.
massa! abs

Luciano Fraga disse...

Buenas,às vezes o amor chega às raias da antropofagia,torna-se nocivo,predador.Devora,consome,perde o sentido de amor na sua plenitude.