Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, julho 17, 2008

NMF pintando na EBA

Foto: Ivaldo Sanfer (Escola de Belas Artes/UFBA, 2008)

Um comentário:

ED CARLOS disse...

O vi pintar febrilmente como se possuído por uma força superior a atacar a tela como cores quentes, vermelhos, violetas, verdes se missigenarem para a formação pictórica. São retratos expressionistas, brotam do acaso como ecos Dekoonianos, de um expressionismo figurativo de onde emanam aterradoras figuras. O artista desde longa data vem por expressar esta forma de arte ancorada num expressionismo pessoal. Pintar compulsivamente, até esgotar qualquer superfície de onde possa insuflar a mínima mancha tonal. O mesmo pinta ao lado de Graça Ramos, como se num combate silencioso, uma luta travada entre pincéis e telas encimadas em cavaletes. A temática de Nelson Magalhães Filho é a figura humana. Mestre e discípulo pintando lado alado, criador e criatura. Graça Ramos, dança com paleta e pincéis nas mãos embalada ao som de Zizi Possi. Aquele momento parece um ritual criacionista, artisticamente falando, onde há toda uma cerimônia. Sala cheia em total vapor, desde o piso até as paredes cobertas de experimentos plástico-visuais, onde a terra do mar, tecidos e cola participam. Um momento de pausa, à se lavar a alma e esfriar a cabeça.