Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, dezembro 05, 2008

CACHORRO RABUGENTO MORTO EM NOITE CHUVOSA


Um vídeo-poema de Nelson Magalhães Filho
Com Priscila Pimentel
Direção de arte, fotografia de cena, maquiagem e figurino: Karla Rúbia
Música: Banda Inominável
Poema, imagens, edição e direção de Nelson Magalhães Filho
Duração: 5 min
Salvador -Ba- 2008



Fotos: Karla Rúbia

14 comentários:

Luciano Fraga disse...

Buenas, digno de um poema lancinante e inquieto,impregnado de uma angústia raivosa própria dos cães ruins,tenso e corrosivo, excelente, parabéns pela qualidade do conjunto, abraço.

Állex Leilla disse...

Nelson: as imagens em seu blog são sempre muito inspiradoras. Como vai a pintura? Se ainda tiver daquelas camisas maravilhosas eu gostaria de adquirir mais algumas! Beijos!

sandro caldas disse...

Olá, Nelson!
Sou fascinado por esse mundo das artes plásticas, embora seja quase um leigo nesse universo.
Adorei seu blog e muito obrigado pela visita.
Estarei sempre por aqui para aprender um pouco mais e conhecer sua arte!
Parabéns!

Glenda Rodrigues disse...

Obrigada!!
[hum.. vc é o dono do cão, né? Congratulations!!]

Adriana disse...

Interessante essa forma de linguagem. Bom trabalho, bem elaborado. É bom conhecer o que está rolando nesse mundo da arte. Abraço.

Ruela disse...

Granda maluco ;)



Está muito bom.


Curti o som.


Abraço.

Trivial Sofisticado disse...

Nelson, que texto incrível! O vídeo poema ficou qualquer coisa de fantástico.
Parabéns a você e a todos que contribuiram com essa catártica experiência que acabo de ter!

Edu O. disse...

obrigado pela visita. apareça sempre. abraço

fao disse...

a música caiu perfeita, o cachorro rabugento revirando a vida pelas viceras....
sempre forte e mastodonticas suas artes...

abraço

Marcia Barbieri disse...

Adorei,o poema,as imagens, a atriz,a direção...e o cão rabugento existente em todos nós.

beijos

Trivial Sofisticado disse...

Obrigado pela visita e pelas palavras, Nelson!

Grande abraço!

. fina flor . disse...

parabéns, querido, bem bacana a estética do filme :o)

beijocas

MM.

Ca:mila disse...

Muito bom o vídeo e os textos, realmente fortes. parabéns.

abraços

Nilson disse...

Muito forte o poema, o vídeo nem se fala. Bela interpretação de Priscila. Parabéns a todos!