Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, dezembro 19, 2008

EFRAIM MEDINA REYES

SONHEI QUE TRANSAVA COM A SYLVIA PLATH
Arranha-céus que caminham pela superfície da água como profetas tardios. Homenzinhos cheios de comprimidos que caem das altas janelas dos seus sonhos até os bueiros e ralos do homem branco. Vampiros que chupam ânsia nas privadas públicas. Escolares assassinos e todas as coisas que nunca aparecem nos postais. No meio do trânsito sou alguém que aprendeu a voar, poderia assombrar magos e xamãs. Prefiro mergulhar no bosque da noite, saltar ao céu, com todos esses truques que jamais usei.

Efraim Medina Reyes

Do livro de poemas Pistoleiros/Putas e Dementes,2006, Ed. Garamond, RJ,
Tradução de Maria Alzira Brum Lemos

5 comentários:

Marcia Barbieri disse...

Adorei!!!

beijos ternos

Luciano Fraga disse...

Buenas, as dicas de fim de semana são excelentes, poesias de primeira, Efraim Medina, trabalhos maravilhosos em Belas Artes, Dylan, quero o que mais, aqui tá completão, grato pela força, abraço.

anjobaldio disse...

Buenas, o "Badinho" está lá no cachorro rabugento.

bat_trash disse...

Excelente!

Beijos.

On The Rocks disse...

efraim é um dos nossos, e as dicas pro fim de semana são ótimas!

abs