Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, março 28, 2007

Arte: Ederson Baptista
Texto: Nelson Magalhães Filho e Ronaldo Braga
O BRINCO DA PRINCESA
FÚCSIA - Sob este mote, brincam os autores com a poética esdrúxula do humano, onde a violência banalizada no mundo contemporâneo propõe uma nova visão humanística para o velho dilema entre o bem e o mal.
Explorando os limites da sanidade, disseca a acomodação social e o embrutecimento advindos desta acomodação, de forma que ao se banalizar o "modus vivendis" deste início de século, inconformados com a apatia social, os autores, românticos e poéticos, devolvem com uma carga violenta (de resto...) esta postura social, a qualquer um que preste a ouví-los.
Fúcsia, mais que o delicado brinco de princesa é uma armadilha para a platéia. Sem ser incômodo, planfetário ou grosseiro, atinge o âmago da consciência de cada um, montado um panorama de filosofia do absurdo, que é coincidentalmente o que permite a apatia a cada um de nós, como forma de construção das defesas psico-lógicas, para se sobreviver ao embrutecimento assentido do nosso tempo.
Propondo dois personagens fundidos em um único, quando o verso e o reverso permeiam na inutilidade das ações cênicas, provocam uma aglutinação, uma relação de amor verdadeiramente sentido entre ambos, uma vez que, na trama, é abolida toda e qualquer hipocrisia.
Fúcsia trabalha com a verdade, mesmo reconhecendo que o absurdo dela faça parte, como na passagem em que o motivo para o crime seja a bunda da filha do assassinado a lhe sorrir no enterro.
A crueldade como forma de reconhecimento, como espelho das posturas e ações do nosso tempo, fazem de Fúcsia um raro discurso filosófico da atualidade. Um grito de inconformismo, um grito de desespero frente a mutilação consentida do humano.
Bel Mascelani, poeta.


Um comentário:

Braga e Poesia disse...

uma critica que antes é uma poesia, a Bel é pra mim uma das melhores poetas da atualidade e suas palavras me deixa com uma vontade muito grande de continuar produzindo.