Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, março 01, 2007



FÚCSIA: Pintura de Nelson Magalhães Filho


Como dizia Fernando Pessoa, "morre jovem o que os deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares..."


UMA OUTRA DRAMATURGIA
... Venho aqui comentar o aparecimento de um outro texto teatral escrito a quatro mãos por Ronaldo Braga e Nelson Magalhães Filho, a peça FÚCSIA lançada no início deste ano pela Companhia dos Anjos Baldios... A peça de Ronaldo e Nelson apresenta dois personagens que representam, a princípio, um mesmo símbolo na figura do assassinato, da morte como solução, sendo que FÚCSIA o assassino não tem problemas morais em sê-lo, antes pelo contrário a trama se desenvolve em torno de seus devaneios ao conceitualizar o assassino.
A força do texto vai construindo a emoção de cada um dos personagens. As palavras vão afirmando e conduzindo as ações e , ao mesmo tendo todas as aparências de um diálogo, o que acontece é na verdade o entrelaçamento de dois monólogos sobre um mesmo tema: A inutilidade da vida, a morte como o único encontro possível. A vida como um merecimento de um eterno e infinito confronto. Toda morte é necessária. A vida tem o peso da dor de sua existência. A dor que vem do inexplicável, do fracasso, da angústia impotente de não fazer nada. De não ser nada e transformar a morte numa certeza solidária. A morte como uma cartase coletiva é, na verdade, o espelho da morte que existe em cada um; e o ato da morte é mostrado como uma expressão de sobrevivência que possibilite o existir.
Revolvendo as suas origens e desilusões os personagens Bernardo e Lakarus traçam um caminho através de flash-backs, que conduz cada um ao seu próprio exílio como prática de uma vivência remexida, desde as origens do ser vivo até o impacto da obrigação de relação social. É feita, então, uma releitura da caminhada do homem no universo transformado a dor e a superação desta, num abandono da culpa cristã e a proposta de uma busca infinita que nem a morte supera.

Zeca de Magalhães, abril de 2001


Um comentário:

Braga e Poesia disse...

escrever de novo sobre o zeca e é sempre triste porque por mais que eu escreva nada mudará a realidade: ele se foi.
mas fica uma outra existencia e essa imortal: a criação artistica do zeca.
brilhante zeca muito obrigado por tudo.