Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, novembro 12, 2007

Foto: NMF

TEM UM POMBO VERDE NAS SUAS COSTAS
para Judite Pimentel, depois que li A Senhora da Torre

tem um pombo verde nas suas costas Judite,
quase cabia sua excitação encrustada
na briga contra os lírios cultivados
no frasco de esperma quando disse a avó
mas logo virou-se irada e dormiu Judite
muito tarde já.
com muita delicadeza a avó,
de guardar selos de cartas antigas
e refresco de abacaxi, importunou-se
por um sol bem longe já vistoso
ou colocando os lírios de vingança no jarro
verde da sala de visitas que nunca
ludibriar vinham nada,
ainda limpou a boca num lenço bordado
e aguou algumas bolachas de batismo
no bolso da camisa enquanto seus olhos
viravam ágatas que encruavam
por toda sua pele lânguida
e a unha do pé esquerdo encravada
pensou no oculto dos poemas não escritos,
quase um anjo no quarto onde dormia a avó
na tarde em que desfiava o piano
entre enormes talagadas de abacaxi: a
sibila entre as cartas antigas comia
os lírios para depois parir felinos
purgativos.

Nelson Magalhães Filho

3 comentários:

SAMANTHA ABREU disse...

fico boquiaberta...

Nelson Magalhães Filho disse...

Eu é que fico delirando nos teus poemas.

luciano fraga disse...

Buenas,"unhas encravadas,parir felinos purgativos,talagadas de abacaxi..."Como diria o grande Gullar:" Só cabe no poema o homem sem estômago..."Texto felino.