Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, janeiro 22, 2008

Foto: NMF

desimaginar esta espera onírica
de um mar que não houve, apenas
vagas desilusões na vertigem
de teu beijo arcaico
e entrava nos subterrâneos
roçando peles estranhas: estou
apenas de passagem neste perpétuo
sentimento ancestral, esse desejo
rugoso de sempre naufragar
pela terra árida
desolação encravada no findar
da noite os acasos esfarelados de luar
sobre teus afetos vermelhos
esse escamoso desejo de destruição
me apavora.

Nelson Magalhães Filho

4 comentários:

Fulana Miranda disse...

Ainda sem cabeça para ler, apenas para colocar para fora o que precisa ser ritualizado quanto a tudo que tomamos como sagrado em nossas vidas, como o amor... Deixei uma respostano meu próprio blog, junto ao seu comentário. beijo

Ruela disse...

olá Nelson...publiquei Melodias de Agosto no Discharge...espero que não se importe.
um abraço

Maria Muadié disse...

vermelho sangue, vermelho paixão.

SANDRO ORNELLAS disse...

acho que seus poemas e seus vídeos trepam após ler Bataille, enquanto suas telas olham pelo buraco da fechadura e constróem suas próprias fantasias.