Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, janeiro 08, 2008

Nelson Magalhães Filho. PAISAGEM QUE AS CRIANÇAS URBANAS COMERAM, 1995, mista s/tela, 185X145 cm
Não brincou
sequer matou lagartixas nos muros
subiu em cerejeira
amou em alguma esquina
no fim da tarde
se entregando nas teias de aranha
doloridas pelo brilho do sol
feito uma poesia
feito uma fruta vermelha
no quintal do vizinho
se entregando pelo dia
que é uma vida inteira
de espera
de chuva
de moleque
de sonho...
De morrer de uma alegria qualquer
de se doer todo de uma fantasia.

Nelson Magalhães Filho

2 comentários:

Adriano Caroso disse...

Sábias palavras meu caro! Por muita sorte, pulei muito muro de vizinho, trepei em muita árvore, brinquei de médico injetando éter em lagartixa, tomei banho escondido em açude poluído, roubei muito pito de carro, brinquei de papai e mamãe com prima no quintal e morri de muitas alegrias. Doer mesmo só as surras de Mame Blue ao descobrir tais travessuras. Você é fera. Das telas às palavras, é muita beleza junta. Parabéns!

A estranha disse...

Um poema belo, que me transportou à infãncia e à possibilidade de morrer de uma alegria qualquer...

Adorei o contraste entre a beleza do poema e a crueldade das paisagens internas comidas...

Beijos