Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

terça-feira, janeiro 08, 2008

FOZ, poema de Luciano Fraga



Meu amigo Luciano Fraga recitando um dos densos poemas de seu livro inédito VAGALUMES.
http://versoseperversos.blogspot.com/

4 comentários:

white rabbit disse...

que é que você está fumando em seu perfil do retrato meu homem?

anjobaldio disse...

White rabbit: Cruz das Almas é a terra onde se fabricam um dos melhores charutos do planeta. Grande abraço.

Isaque Viana disse...

Olá, Nelson!
Encontrei seu blog enquanto navegava pela net.
Olha... Gostei daqui.
Gostei muito do post anterior.

Um grande abraço!

Adriano Caroso disse...

Denso. Realmente muito denso e belo esse poema. O White Rabbit me fez lembrar de um amigo meu de Recife, cantador de forró, Josildo Sá. Na contra capa do seu primeiro disco, criada pelo meu compadre Ray Vianna, ele aparece apertando um cigarro de palha. Entrevistado numa rádio no lançamento do CD foi perguntado se era maconha. Ele prontamente respondeu ao locutor: - é o cigarro que quem pergunta gosta de fumar... rsrs