Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, outubro 26, 2007

ARQUIVO SUSPENSO

Rimos de tantas noites abertas em vértebras,
as luzes desafinadas ou cegas do sexo,
em algumas um jeito estranho de fazer silêncio.
Uma delas distraía cinzas com suas reservas de fogo.
Limites encobertos em suas formas abaixo do nível
de tantos anúncios e sombras. A cabeça do sol
nas mãos de teu demiurgo insondável: bem aqui,
onde passarei a vida inteira a teu lado. Guarda
a tua última palavra. Não há sacrifício comum.
Compartilha comigo apenas o sabor que trazes
de outras bocas: secreto vagido de espelhos.
Percebe o tumulto a dormir, decifra seus sonhos,
bem aqui: onde o precipício é tua única verdade.
Silêncio, meu amor, goza bem dentro do meu olhar.

poema & imagem: floriano martins
outubro de 2007

Um comentário:

diovvani mendonça disse...

Aqui, grande reserva-solar do bom fogo poético.

~^^ ~Abraço~^^ ~

P.E. Tenho alguns exemplares da revista EXU - comprei num sebo.