Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, outubro 19, 2007

Nelson Magalhães Filho. S/T, 1995, mista s/ tela, 185X145 cm

meus dedos tremem: está
tão turvo lá fora desta casa
que as flores amarelas do jardim são afligidas
pelo mistério (ou uma espécie de sabor secreto),
enquanto esconjuro
a última lua que volta implacável
a reinar madura em meus olhos de ulha.
e aí aventurava-me só
pela fragância morna
dos obscuros girassóis à deriva
(indesejável e fascinante a partida sem dor),
conservando na lembrança
o alento dos insones.
solitude é um fado,
e cavalos selvagens me habitam nesta noite
além das estrelas insólitas com seus destroços
arremessando moréias devassas aquém de
minha insânia.

Nelson Magalhães Filho

4 comentários:

lucianofraga disse...

Buenas,nesta toada insana,estrelas são arremessadas contra nossa obscuridade,nos arruinado com espinhos e esporas ao som de um tristonho fado...

Ruela disse...

Gosto muito das cores da tela.

SAMANTHA ABREU disse...

danço com teus versos!

L.Reis disse...

...o que ficou na tela dos teus dedos que tremem foi este desassossego de cores a explodir no olhar. Um "absurdo" de sentidos que vivem submersos na própria pele. Gostei! Muito!