Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, outubro 31, 2007

Foto: Nelson Magalhães Filho

NOTURNO DO VALE DO CANELA

O corpo agitado da cidade em seu
individualismo heterogêneo sob
um crepúsculo chuvoso, o fluxo

metálico do trânsito, a idêntica
miséria dos passantes e dos pedintes,
a hora escura dentro e fora que imperativa

pendula seu peso vivo, o ângelus ao
longe, e algum demônio em sua gravidade
patética, no topo do prédio, vigia;

na luz confusa deste tempo semi-
líquido a certeza cruel – nada diz, mas
muito expressa: a vida empobrece e crispa-se

de frio, que agora sopra mais agudo
e no seu vir traz a noite completa, e
sabe, quem atravessa-a, que a casa, a mão

meiga, a ceia, o imperceptível arcanjo
que por entre a multidão passeia têm
pouca serventia de consolo ou escudo;

tão seco e terrestre nessa solidão
sem Deus, balir e balir contra o próprio
muro e ouvir a lógica desesperante

do eco ressoante pelos vazios
corredores do corpo e o seu insistir no
provisório e no acidental. E deste

viaduto sobre o vale (a chuva mais se
adensa), no parapeito resolver
seria (a treva é mais intensa) pular? O

coração com seus caminhos aéreos
nunca repousa em satisfações, e quantas
vezes queda em negativas indagações;

com o trânsito a multidão escoa, um
cão se encolhe num canto ou é uma pessoa?
Aceitar o conflito contínuo que a

vida respira mesmo quando a luz
sufocada dos postes bate nula
contra a noite, a chuva, a desesperança...

João Filho
Posted by hipergheto

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2 comentários:

luciano fraga disse...

Buenas,real,urbano,cruel e magnífico...

L.Reis disse...

A vida é sempre esta mancha pouco nítida que em vão respiramos...