Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, agosto 03, 2007

REFÚGIO PRONUNCIADO

Acompanho a vigência da chama
ondulando a paisagem de teu corpo.
Para cada ângulo de meu olhar
tens um extravio pronto, um alvo
a insinuar-se lento enquanto me lês
por trás de arbustos e restos de luz.
De onde me vês mil símbolos buliçosos
se agitam despindo abismos e órbitas:
seios que soluçam correnteza abaixo,
letras úmidas do barro em que modelas
teu arcanjo rebelado em meu ventre.
Desata-me na medida de teus dons.
A todo instante erramos as páginas,
braços e pedras, dessa casa invisível.

poema & imagem: floriano martins
agosto de 2007

5 comentários:

Renata Belmonte disse...

Muito Lindo!

Tempestade disse...

"Para cada ângulo de meu olhar
tens um extravio pronto, um alvo
a insinuar-se lento enquanto me lês
por trás de arbustos e restos de luz."
...gostei. gostei de te visitar.

cõllybry disse...

Lindo..este ondular de corpo...

DOCE BEIJO

carla granja disse...

olá! entrei aki por acaso e claro gostei do k li . eu tmb tenho um blog com poemas de minha autoria e fotos minhas tmb. gostava k desses uma lida e k me digas se gostas do k escrevo.
http://paixoeseencantos.blogs.sapo.pt

Linda Graal disse...

Maravilha isso!! putz!!!! Floriano é sempre desconsertante! ;)

amplexos