Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

sábado, setembro 22, 2007

HOJE - caruru dos 7 poetas

RESIDÊNCIA ARTÍSTICA




Comunicado

O Theatro XVIII fecha suas portas nesta sexta-feira, 21 de setembro de 2007, por absoluta falta de condições de manter-se em funcionamento. O contrato de manutenção das suas despesas básicas (energia elétrica, água, folha de pagamento de funcionários e prestadores de serviços) - vencido em fevereiro de 2007 e aditado em 20% do seu valor para cobrir despesas de 6 meses (março, abril, maio, junho, julho e agosto deste ano) – ainda não foi renovado, criando dívidas impagáveis.
Inaugurado em 1997 como espaço âncora do Pelourinho, o Theatro XVIII ultrapassou seu objetivo inicial tornando-se uma casa de pensamento - "universidade a céu aberto" – com um padrão especial de requinte, simplicidade e originalidade, verdadeiramente democrático. Sua gestão manteve o foco na difusão real da cultura, colocando-a de forma acessível a todos os públicos. Na sua sala de espetáculos estrearam algumas das montagens mais significativas do teatro baiano em seu bom momento atual. Suas aulas de história da Bahia, seus saraus, suas palestras discutiram a cidade, a arte universal e a vida contemporânea, propiciando novos olhares sobre o mundo em uma sociedade que carece muito de auto-reflexão.
Livre, como deve ser uma casa de pensamento, o Theatro XVIII fechará suas portas físicas porque não existe "longa vida" sem água e luz, e aguarda que a Secretaria de Cultura confirme a sua intenção de manter a inteligência democrática do espaço em funcionamento, como nos últimos dez anos. As crianças dos Miúdos da Ladeira e os jovens da Companhia Axé do XVIII continuarão tendo aulas no Anexo.
À imprensa, os artistas dos XVIII solicitam a divulgação deste comunicado, para que seus milhares de espectadores tomem conhecimento desta situação que se espera temporária e breve.
Aninha franco e Rita Assemany estarão à disposição da imprensa para maiores esclarecimentos na segunda-feira, 24 de setembro, às 10 horas da manhã, no próprio Theatro XVIII - Rua Frei Vicente, nº 18, Pelourinho.

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