Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, setembro 06, 2007

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS BALDIOS, 2006, mista s/ papel craft, 120X105 cm

quero um pacto subterrâneo.
você transfigura-se num oceano terrível
antes da faca,
da serpente
o verdugo.

Nelson Magalhães Filho, de A Cara do Fogo

8 comentários:

belinha disse...

Caramba, Nelson!Obrigada!A tua pintura é forte!Gostei!

Ruela disse...

Expressivo...bom traço
Um abraço

Anônimo disse...

Nelson meu velho, valeu a visita no palavras cruzadas. A coluna do dez acabou, mas o palavras vai continuar. aguardo tuas visitas. vou conferir tuas obras agora.

abraço,
patrick

L. Rafael Nolli disse...

Nelson, meu camarada! Essa série Anjos Baldios é muito forte. Tem uma pegada expressionista, uma coisa de impacto! O teu poema Cachoro morto... se encaixa muito bem com esse traço agressivo! Cara, tava pensando se eu não poderia levar uma dessas imagens para meu blog? Se puder, dê um toque! Abraços!

Braga e Poesia disse...

PACTOS. Porque fazemos pactos e pra que?
Nelson esse seu poema é uma entidade caminhando errante por um mundo nas tevas. com um ritmo diferenciado e uma cadencia que só se revela no todo, ele traz em seu corpo verdade ausentes como a necessidade de trair.

SAMANTHA ABREU disse...

tão subterrâneo quanto meu âmago.
que arde, agora.

muito bom, poeta.

beijos.

©õllyß®y disse...

Imagem bem sigificativa, as palavras tambem...

Doce beijo

Renata Belmonte disse...

Nossa, Nelson! Adorei esse quadro! Muito bom! No mais: você recebeu meu livro?
Grande abraço,
Renata